segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Páscoa e o ocaso da moralidade


E a loucura que virou a Páscoa se repetiu mais uma vez esse ano, inclusive em termos climáticos. Tem sido sempre assim e continuará sendo. Esse período representa emblematicamente a transformação pela qual o mundo passou nos últimos tempos, de um feriado austero e contemplativo, se tornou uma busca frenética por chocolates e pela necessidade que tantos sentem de estar sempre no centro dos acontecimentos (agora a moda é o baile havaiano do sábado de Aleluia; antes, em uma época que o Outono já trazia frio, realizavam-se procissões...).
Para mim, o desvirtuamento da Páscoa é mais acentuado do que o do Natal, que apresenta um aspecto comercial há mais tempo e no qual a troca de presentes disseminada contribui mais com o frenesi. O costume de trocar chocolates era algo intrafamiliar até uns vinte anos atrás e foi de lá para cá, cada vez mais, que assumiu esse caráter tolo que dá as cartas atualmente. O Natal já mudou há muitas décadas e talvez as pessoas de maior idade sintam essa modificação mais fortemente que os da minha geração, o mesmo que eu tenho observado com relação à Páscoa.
É fácil adotar o chavão de imputar ao capitalismo essa situação. Fácil e equivocado. Como sempre, a abstração do economicismo posta no lugar das pessoas de carne e osso e de sua moralidade. Será que os que nunca se debruçaram seriamente sobre uma análise das sociedades humanas e, logicamente, incluo nisso todos aqueles que se sentem bem e isentos de responsabilidade por adotarem discursos politicamente corretos, não são participantes da Páscoa pós-moderna? Temo que sejam. Eles mantêm a “tradição” do dia santo sem “carne” comendo peixe. Peixe não é carne?! Peixes morrem por asfixia. Os oceanos são pilhados. Como se não bastasse, o sábado de Aleluia é geralmente marcado por um churrasco e a abstenção da “carne” no dia anterior descamba logo depois na liberação das pulsões por sangue. Vá lá se alguém hoje em dia que ainda não se livrou do consumo de cadáveres ficasse durante os quarenta dias da Quaresma sem carne vermelha, pois seria um pouco mais coerente.
As origens do capitalismo mais genuíno podem ser desincrustadas no puritanismo do século XVII. Os puritanos, permeados por forte sentimento religioso, pregavam uma moralidade rígida, sendo que somente o indivíduo austero, disciplinado e esforçado estaria apto ao acúmulo da riqueza, visto por eles como forma de redenção propiciada pela entidade divina. “Deus ajuda a quem cedo madruga”, eis a máxima mais puritana e capitalista que já houve. Será que essa moralidade e esse comportamento podem ser verificados no mundo de hoje? Com certeza a resposta é não para a maioria das nações. Atualmente, quem mais acumula em países sem tradição capitalista e onde os padrões de moralidade são desprezados, são os que passam mais distantes de qualquer regramento puritano. A culpa é do capitalismo?!
Os supostos doutos sabem que o mundo mudou para pior em vários aspectos, como este que ora reflito é só mais um exemplo. Eles criticam a degeneração, mas cometem a hipocrisia de participar dela e, o que é talvez ainda pior, buscam explicá-la segundo esquemas de pensamento sem nenhum elemento de universalidade ou de moralidade, inválidos até mesmo para pensar o contexto do qual foram produtos, completamente absurdos e extemporâneos em se tratando da contemporaneidade. A culpa é do capitalismo?! Que capitalismo?!

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