sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Volume 4: os quarenta anos de um clássico nem sempre tratado como tal


Os assuntos relativos à política brasileira são aqueles que predominam neste blog e, por mais que se façam de extrema pertinência, de vez que todos os caminhos sejam válidos no combate à ditadura PeTralha que assola o país, devo informar que em vários momentos eles me causam profundo fastio. Seria preciso escrever sobre o cotismo desenfreado do governo federal, sobre o resultado das eleições norteamericanas e a relação com o Brasil e ainda sobre o julgamento do Mensalão e outros temas que abarcam tudo aquilo que se refere ao nosso cotidiano, todavia hoje pretendo, como se diz, dar um tempo nessas questões para trazer uma discussão mais leve e voltada para o tópico musical. É assim então que resolvo dedicar o espaço para resenhar, segundo estritas impressões particulares, um disco que considero dentre os mais brilhantes da década de 1970 e da história do Rock em geral: trata-se de Volume 4, do Black Sabbath, lançado no ano de 1972, há 40 anos.
Sempre manifestei abertamente minha preferência por coisas de caráter mais confidencial e afirmo isso em relação ao tema que ora escrevo porque me parece que Volume 4 não tem tido, ao longo de todo esse tempo, o devido reconhecimento, ainda que na época de lançamento a vendagem do disco tenha sido das mais expressivas. Talvez seja melhor assim: o que permanece oculto exige ser desvendado, não se manifestando fácil e abertamente sem que haja "esforço" por parte do explorador. Devo também dizer que em termos de Black Sabbath tenho predileção pela fase Dio, não só pelo fato do falecido vocalista ser infinitamente superior a Ozzy Osbourne, como também porque o pique de Heaven And Hell e Mob Rules me agrada mais do que o período setentista. Não é por isso que os trabalhos da fase Ozzy não mereçam louvores, muito pelo contrário, em especial a meu ver, exatamente quanto a Volume 4, o que o torna a mim ainda mais agradável devido às suas particularidades. Invariavelmente, quando se coloca o Black Sabbath em discussão, noto que Volume 4 não é citado de modo destacado entre os apreciadores da banda, que costumam se entusiasmar bem mais citando o disco homônimo de estreia do quarteto, ou Paranoid, Masters Of Reality, Sabbath Bloody Sabbath e Sabotage. De minha parte, contando todos estes, coloco Volume 4 em alguns patamares acima. A preferência, nesse caso, é obviamente subjetiva, sendo que o melhor a fazer é comentar a respeito dos motivos que me agradam tanto no referido disco.
Para começar, o trabalho encontra a mais empolgante abertura com Wheels Of Confusion (The Straightener), composição rica em arranjos, melodia, quebradas de ritmo e permeada pelos inconfundíveis riffs de Tony Iommi. A música dá claros indícios da maturidade atingida pela banda após os três primeiros trabalhos. O compasso de Wheels... soa majestoso e naturalmente marcante. Em seguida, Tomorrow´s Dream é responsável por oferecer o cartão de visitas sabbathiano: a atmosfera doom e os vocais sombrios de Ozzy dão o tom desta excelente composição.
Depois do início tipicamente pesado e da rifferrama, chega-se ao primeiro momento experimental de Volume 4, algo também típico da fase setentista do Black Sabbath. Ao contrário do disco como um todo, Changes se tornou difundida, não sem justiça, pois a considero muito mais acertada do que experimentações de outros discos, como Planet Caravan, Orchid, Solitude ou Fluff. Changes é uma das primeiras baladas do Rock pesado, apreciação que confirma igualmente neste sentido, o pioneirismo do Black Sabbath.
Não é preciso comentar acerca de FX, que não é uma música, mas apenas um interlúdio para as faixas intermediárias de Volume 4. O peso e os riffs retornam com tudo em Supernaut, de refrão pegajoso e improvisos surpreendentes vindos das baquetas de Bill Ward. Uma das dez melhores músicas do Black Sabbath em minha opinião. O disco prossegue fortíssimo com Snowblind, música de trabalho em Volume 4 que, juntamente com Changes, se tornou mais difundida do que as demais. É um grande som, marcado pelas qualidades características da banda e, infelizmente, quanto à letra, também pelo vício em drogas que levaria o quarteto a seríssimos problemas. A sétima faixa é Cornucopia, que mantém a peteca no alto e faz permanecer a excelente qualidade do disco, sem dúvida, o momento de maior destaque em Volume 4 para o baixo vigoroso e ultra pesado de Geezer Butler.
A fase final de Volume 4 começa com Laguna Sunrise, outra viagem que suscita torção nasal por parte de muitos. Nem de longe é minha opinião, já que embora esquisitona, a música possui inegavelmente lindos arranjos de violão e violino, servindo de calmo e introspectivo prelúdio para o poderosíssimo fechamento do disco. A penúltima faixa é St. Vitus Dance, minha predileta juntamente com Wheels Of Confusion e Supernaut. O riff é soberbo e a música combina magistralmente trechos rápidos e dançantes, como sugere o título, entrecortados por breves andamentos lentos. É o tipo de som que não se quer que termine de jeito nenhum e nisso está seu único defeito: curta em demasia, somente 2:21. Fica um tremendo sentimento de "quero mais"! E eis que se chega ao gran finale com Under The Sun (Every Day Comes And Goes), doom, obscura, pesada, dona do melhor solo do trabalho e "lentona", sendo esta última característica presente em muitas das músicas de encerramento dos discos da banda, até mesmo em fases distintas dos anos 1970.
Volume 4 é, segundo minha avaliação subjetiva - repito - , o terceiro melhor disco do Black Sabbath, ficando atrás apenas dos dois petardos da fase Dio no início dos anos 1980 (não reputo a mesma qualidade a Dehumanizer, de 1992). Um clássico setentista, um clássico do Heavy Metal, por mais que o termo seja detestado por Ozzy, um disco grandioso que revela detalhes ocultos a serem continuamente desvendados mesmo após 40 anos de lançamento, um dos grandes momentos do Rock. Para o apreciador de música pesada que ainda não possui Volume 4 em sua metalteca, o item é indispensável, valendo a pena adquirí-lo em CD remasterizado, com ótima qualidade de som ou em vinil, caso consiga se encontrar, afinal, um disco tão bom como esse não merece ser escutado em MP3, o radinho de pilha do século XXI.

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