quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Dilma e o cinismo


Ao contrário da maior parte dos quadros de seu partido, a presidente Dilma Rousseff, se considerarmos o primeiro ano e meio de seu mandato, parecia ter um estilo de condução política bem menos afeito ao cinismo e mais preocupado em trilhar caminhos mais austeros e pragmáticos. Não, é evidente, que essa postura de cunho até certo ponto racional garantisse características dignas de elogio ao governo de uma petista, pois a excelência administrativa e política jamais passou pelas intenções de um partido liderado por nomes como os de Lula, Rui Falcão, Tarso Genro e José Dirceu, entre outros tantos políticos de formação claramente autoritária, mas pelo menos se apresentava como mecanismo de comunicação nem tão atrelado ao populismo messiânico recheado de hipérboles e metáforas, como na época do presidente anterior. Ainda que elíptica, fachadística e lacunar, a retórica de Dilma foi muitas vezes bem mais aceitável do que a de Lula.
Esse posicionamento low profile, todavia, foi abandonado nos últimos meses e a presidente vem lançando mão de discursos que, se (por enquanto) não podem ser comparados ao estilo tipicamente histriônico de Lula, sem dúvida alguma se tornaram tão cínicos e prepotentes quanto os de seu antecessor. A bem de verdade e pensando com mais minúcia, a coisa nem poderia se manter diferente por muito tempo em se tratando de um governo construído a partir de orientações ditatoriais e gramscianas.
Depois de ter se acostumado a adoçar os ouvidos e atender às vontades do empresariado ligado ao poder ao mesmo tempo que atira pedras no pouco que resta do mercado no Brasil, intimidando dessa forma os empresários bem intencionados, bem como afugentando os investimentos externos, além de se mostrar completamente inábil para melhorar os problemas de infraestrutura do país (em qual gaveta estará o PAC logístico?!) que tanto encarecem os bens de produção e atravancam o desenvolvimento industrial, Dilma agora resolveu atribuir acentuadíssima carga de mérito próprio pela redução nas tarifas de energia. Em discurso transmitido por rede nacional no dia de ontem (23/01) a presidente foi tomada novamente por arroubos de lulismo e disparou a metralhadora contra aqueles que chamou de "os do contra" e "os pessimistas", esquecendo-se de que muitos dos que se mostraram reticentes em relação a medidas e pretensões do governo fazem parte dele próprio, como o secretário-executivo de Minas e Energia, (anteriormente ministro) Márcio Zimmermann. Certamente Dilma aprecia mais o fanfarronismo otimista de Guido Mantega...
O grande problema se dá em função da negligência com que a presidente abordou a questão energética, exemplo gravíssimo de cinismo só não notado e denunciado por quem tem rabo preso com o governo ou por quem é ignorante o suficiente para se deixar levar pelas lorotas do petismo. É bem sabido por quem busca um mínimo de informação que entre os anos de 2003 e 2009 houve erros absurdos envolvendo a cobrança do serviço de fornecimento de energia no Brasil: segundo os números do TCU o montante total que recaiu a mais sobre o bolso dos consumidores pode ter alcançado cerca de R$ 12 bilhões! Sem nunca ter se prestado a esclarecimentos a respeito do assunto, o governo lançou o discurso da redução das tarifas como se ninguém jamais tivesse ouvido falar no rombo causado à população, tampouco do aumento das mesmas tarifas no final de 2012, acima da inflação. Haja cinismo! Não bastando agir de má fé, Dilma afirmou que o barateamento das contas irá ajudar significativamente os setores econômicos e o consumidor residencial. Será?!
O mínimo que o governo deveria fazer seria expor os cálculos para que a sociedade pudesse avaliar se realmente vai ganhar, em que prazo, se só haverá uma compensação ao invés de redução ou se no final prevalecerão as perdas, porém, é esperar demais de um governo populista e autoritário. E após vários episódios recentes de apagão, como os que ocorreram entre 1999 e 2001 e tanta munição forneceram ao PT, Dilma ainda teve a cara de pau ao dizer que com a volta das chuvas o abastecimento não deverá mais sofrer cortes, ou seja, pela enésima vez nota-se as autoridades brasileiras colocando a culpa na impessoalidade da natureza, sem responsabilizar a falta de investimentos em infraestrutura e tecnologia ou as indicações fisiológicas para cargos técnicos e gerenciais. A presidente também mencionou que as termelétricas terão maior folga com a retomada do potencial hidrelétrico, como se tivesse certeza absoluta da continuidade das chuvas (o outono começa daqui a 2 meses...) e nem sequer teve a humildade de promover uma autocrítica pela total falta de pesquisas e investimentos na ampliação das parcas redes eólica e solar do país. Outros pontos que passaram longe do discurso de Dilma e reveladores de sua falta de atenção ao contexto foram a inflação acima da meta, o crescimento econômico risível de 2012 e o aumento da gasolina, que poderá atingir 5% e faz notar ainda mais gritantemente as falácias nacionalistas e estatólatras que cercam a combalida Petrobrás.
É uma obviedade tremenda perceber que todas essas mazelas e lambanças do governo petista não podem encontrar álibi na suposta redução das tarifas energéticas, apenas um detalhe em meio à grande quantidade de problemas, e que nem mesmo é capaz de compensá-los. O que Dilma aponta como ser "do contra", eu chamo de oposicionismo, algo valorizado nas democracias e necessário diante de um governo inepto e de apadrinhamentos como o do PT, logicamente ojerizado pelo autoritarismo do partido desde que chegou ao poder, mesmo tendo bradado sempre a seu favor e o praticado frequentemente quando fora dele. Já o que a presidente considera "pessimismo", eu reputo de crítica realista, elemento que se torna raríssimo em regimes populistas, por isso mesmo igualmente necessário no combate à catarse e à ingenuidade. Dilma e seu cinismo são a cara do Brasil, por isso, sem titubear, prefiro me manter na oposição e na crítica.

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