domingo, 3 de fevereiro de 2013

Entusiasmo irrefletido: reflexões de Hume e Ginzburg contra o pensamento politicamente correto


Quando eu era apenas um estudante do primeiro semestre da graduação em História, a professora Marcia D'Alessio, uma daquelas que sempre levou consigo a raríssima qualidade de jamais misturar conhecimento com paixões ideológicas, disse em um sábado de manhã, dia em que ela ministrava suas excelentes aulas de Teoria da História I: "[Carlo] Ginzburg é um mestre, um historiador muito acima da média". Eu não sabia nada sobre ele e só estava engatinhando no entendimento dos meandros teóricos da História, mas já podia ter a certeza de que, por tudo aquilo de profundo e sublime que a professora Marcia transmitia aos alunos dispostos a se aventurarem pela riqueza do conhecimento histórico, era uma delclaração a ser bem guardada e desvendada.
O primeiro livro de Ginzburg que li foi O queijo e os vermes, em relação ao qual logo me ficou evidente a criatividade com que o autor abordou o tema da Inquisição e dos paradigmas culturais na Idade Moderna. Depois, fui buscar uma obra teórica de Ginzburg no objetivo de tentar refletir como ele aplicava seus pressupostos teóricos na pesquisa histórica. A leitura óbvia para um iniciante em estudos ginzburgianos seria Mitos, emblemas, sinais, mas encontrei primeiro Olhos de madeira, livro extremamente denso e desafiador para a inexperiência de um principiante. Li a obra umas três vezes, com certo intervalo de tempo entre as leituras, para começar a captar seu cerne. A percepção proporcionada por ela me marcou decisivamente.
A distância espaço-temporal é um dado da subjetividade humana, porém, a influência que faz incidir sobre os homens, a despeito da variedade imensa de efeitos gerados, é uma questão objetiva, presente no dia a dia das pessoas, ainda que de modo muitas vezes inconsciente. Em seu Tratado da natureza humana, David Hume é lapidar no exemplo que fornece: "Na vida cotidiana vemos que os homens se preocupam principalmente com os objetos que não estão muito distantes no espaço ou no tempo, desfrutando o presente e confiando o que é distante ao acesso e à sorte. Fale com um homem a respeito da condição em que ele estará daqui a trinta anos, e ele não lhe dará a menor atenção; fale sobre o que acontecerá com ele amanhã, e será todo ouvidos. A quebra de um espelho na nossa casa nos preocupa mais do que o incêndio de uma casa distante uma centena de léguas". Parece elementar, mas é exatamente o tipo de coisa que o politicamente correto impede de enxergar. Como todo grande filósofo, Hume pensava sempre naquilo cuja validade servisse para ele próprio, regra essencial para se estabelecer a moralidade e, como empirista, detestava o entusiasmo irrefletido.
É mais do que uma evidência notar que pessoas em condições normais lamentam e muito acontecimentos trágicos que vitimam grande número de pessoas, tais como se sucederam há poucos dias em Santa Maria (RS). Investigação e punição de eventuais responsáveis é o que se deve desejar, além de fiscalização mais acurada para prevenir outros eventos semelhantes. Encarar dessa forma não demanda cobertura sensacionalista por parte da imprensa, nem as lamúrias de falso desespero que pipocaram na redes sociais, vindas de pessoas espacialmente distantes de Santa Maria e sem nenhuma ligação com as vítimas. O exagero e a artificialidade observados nessas manifestações são aspectos do manjado politicamente correto, o que Hume chamaria de entusiasmo irrefletido, ou euforia: sem se darem conta que uma tragédia é lamentável por si só, muitos embarcam no espírito geral de consternação e parecem acreditar que palavras sem real significado e que no mais das vezes não são lidas nem ouvidas por gente próxima das vítimas, podem funcionar como uma espécie de consolo capaz de vencer a distância e o tempo. Em relação à distância temporal, é ainda mais fácil perceber sua atuação, bastando indagar quem, dentre aqueles que não possuem ligação com as vítimas, ainda estão sob forte consternação. E daqui um ano, dois...?
Hume e Ginzburg foram argutos ao estudarem o caráter inexorável da distância espaço-temporal e suas implicações morais sobre a experiência humana. Há, por outro lado, quem possa entender tal reflexão como sinônimo de indiferença e insensibilidade, o que igualmente denota a confusão fruto do politicamente correto. A esses proponho que se coloquem a pensar no carnaval que está chegando: irão cair na folia e deixar que o clima de intenso entusiasmo irrefletido os possua por completo? Duas semanas após a tragédia de Santa Maria terão esquecido totalmente dela (se é que se lembraram do acontecimento alguma vez na acepção do que é "lembrar")? Vale ressaltar que o Carnaval, juntamente com o Ano Novo, outra ocasião de euforia, é o momento de maior violência do ano - em todos os sentidos. Quais manifestações permeadas de politicamente correto estas duas épocas ensejam? Acabem-se...

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