sexta-feira, 22 de março de 2013

Toma lá, da cá: estranhas relações com o dogmatismo católico


Como não poderia deixar de acontecer perante o senso comum e também no que se refere a certos programas midiáticos pensados para satisfazer o gosto dos ignorantes, a escolha do novo papa e sua definição por Jorge Mario Bergoglio suscitaram as velhas e surradas discussões a respeito de mudanças em alguns dos dogmas fundantes da Igreja Católica. As questões que envolvem a união homossexual e o aborto são as mais espinhosas, embora não as únicas.
Como muitos já sabem, sou avesso ao catolicismo institucionalizado pela Igreja e aos dogmas católicos, muitos deles totalmente insustentáveis nos tempos atuais. Não sou católico em absolutamente nada daquilo que tem a ver com religião, a não ser um apreciador da arte relacionada ao catolicismo. Descartar a primazia da Igreja Católica em relação à autoridade no ensino da fé, parece todavia, ser de imensa dificuldade para uma enorme quantidade de pessoas. Tenho a nítida impressão que estas mesmas pessoas encaram a religiosidade como uma concessão da Igreja e do clero que, de tempos em tempos, teriam a missão (ou quase a obrigação) de indicar alterações naquilo que se deve seguir e ser entendido como correto e o que é pecado. A despeito da Igreja ter conferido mudanças em algumas partes de seu corpo dogmático ao longo da história, foram alterações sutis e que na maioria das vezes partiram de dentro para fora, baseadas em processos históricos de longuíssima duração, não por apelos imediatos vindos da sociedade. Poderá ser diferente na era da massificação? Muito difícil achar que sim. Além disso, a  incoerência contida nesta lógica é que ao mesmo tempo que leva a sério os dogmas, não os aceita nem de bom grado, tampouco resignadamente, tornando o crente sempre insatisfeito e ávido por mudanças que possam liberá-lo para a prática daquilo que é visto pela Igreja como pecaminoso. Das duas uma: ou o crente chuta para longe os dogmas ou os aceita como princípios de fé isentos da possibilidade de discussão.
Adotar qualquer religião que seja, não somente a católica, sem que sua doutrina seja aceita, não me parece nada proveitoso. Ainda assim, existem religiões que conferem maior autonomia ao indivíduo, bem como lhe fazem incidir maior exigência de responsabilidade individual, sendo desse modo mais atentas do que o catolicismo à sublime noção de que Deus está no particular. Um exemplo, para não sair do círculo cristão, é o protestantismo, que com sua grande variedade de seitas, - exceto vertentes contemporâneas deturpadas e bem menos comprometidas com a fé do que com o merchandising - é mais capaz do que o catolicismo de guiar o crente de acordo com suas próprias concepções espirituais sem lhes provocar conflitos com os dogmas.
Certamente a Igreja Católica poderia rever a obrigatoriedade do celibato clerical e o impedimento do sacerdócio feminino, este último aspecto que a meu ver contém uma fortíssima ambiguidade e, portanto sobre o qual, o dogma nunca foi consistentemente apresentado, como abordam brilhantemente os estudos de Georges Duby ou Christiane Klapisch-Zuber. São dois pontos que contribuiriam para tirar da Igreja o incômodo fardo a respeito dos interditos sexuais do clero, algo que nas últimas décadas ganhou contornos bastante espinhosos com as acusações de pedofilia. Estranhamente, todos aqueles que estrilam a favor do aborto, que defendo em certos casos, e da união homossexual, pouco têm a dizer quando se trata destes outros temas. Talvez porque sejam assuntos que, uma vez discutidos e eventualmente modificados, seriam benéficos para a instituição e não diretamente para a sociedade. Vale ainda destacar que não se observa quase ninguém (Mario Vargas Llosa tocou na questão em artigo recentemente publicado em O Estado de São Paulo) lançando discussões sobre a necessidade da Igreja resgatar suas manifestações artísticas como contributo para a cultura não só do Ocidente, mas de todo o mundo, ponto que não tem a ver com dogmas nem com movimentos de fundo ideológico, mas que em séculos anteriores foi fator fundamental na concepção de obras de diversa natureza e do mais alto quilate, engrandecedoras para todo espírito humano capaz de transcender as fronteiras impostas por instituições religiosas.
Não é porque membros do clero se metem com pedofilia que a Igreja Católica como instituição deva passar a aceitar a união entre os gays, do contrário, correria-se o risco de cair em um toma lá, dá ca e tratar um pedófilo dentro da normalidade. A mudança nos dogmas não pode ser entendida como uma questão de concessão ou negociata. De modo geral, é interessante destacar palavras do novo papa sobre o ateísmo e o agnosticismo, segundo as quais não crer em Deus (em sentido mais tradicional, como entidade externa, o que me parece valer para muita gente) ou pelo menos não se preocupar tanto com sua existência a ponto de orientar toda a vivência em torno deste aspecto, não impede ninguém de erigir a experiência a partir de virtudes que não dependem de crença. Vejo tal declaração como muito mais emblemática e digna de avanço espiritual do que qualquer mudança que a Igreja Católica possa empreender em função de bandeiras politicamente corretas que alguns parecem defender somente por necessidade quase doentia de se mostrarem "modernos".

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