quinta-feira, 25 de abril de 2013

Um evento decadente no "Brasil democrático"


É possível que tenha sido quase sempre do mesmo jeito desde a antiguidade ateniense, mas não tenho dúvida de que atualmente, uma das ideias mais mal compreendidas seja a de democracia. A posse de instrumentos políticos coercitivos legitimados a partir da influência de governos, as agitações políticas autoritárias travestidas do que usualmente se denomina "lutas sociais", a massificação e o populismo, anomalias da própria política ou distorções do conceito de democracia, têm sido exaustivamente, de modo consciente ou não, confundidos com a ideia democrática. Curiosa e lamentavelmente, todos esses agentes patogênicos do mundo da política constituem o extremo oposto da democracia. Argumentação racional, isonomia legislativa, liberdade política e individual, sentido de dever e responsabilidade, meritocracia, bem como a existência de instituições sólidas, pilares sem os quais não existe possibilidade alguma de florescimento e manutenção de um sistema democrático, são todos eles elementos totalmente ausentes dos desvios que a ideia de democracia tem sofrido.
A notícia fresca de que Jérôme Valcke, secretário geral da FIFA, declarou ser a suposta democracia brasileira geradora de entraves para a realização da Copa 2014 no Brasil causa o mais alto estarrecimento. Pelo teor abstruso de suas palavras conclui-se que Valcke não faz ideia do que possa ser uma democracia, tampouco conhece algo sobre a organização da política brasileira. Ele acredita que haja nestas paragens tupiniquins um sistema democrático, revelando profunda incompreensão no que se refere às práticas de governo do PT, elas próprias propiciadoras da realização do mundial de futebol no país de Lula, de Dilma Rousseff, de José Dirceu, de Ricardo Lewandowski, da CBF, da Rede Globo e das massas em catarse. Para Valcke, o fato de termos eleições e a presença de oposição, parece bastar para qualificar o país como democrático. Ele não atenta para a quase ausência de debate político que norteia nossas ridículas campanhas eleitorais, para o analfabetismo político do eleitorado, nem para o fisiologismo do sistema partidário brasileiro. Talvez Valcke não seja obrigado a estar ciente de tais detalhes, mas é inacreditável que não se mostre capaz de prestar atenção no capitalismo de Estado (ou seria mais exato chamar de socialismo?) que vigora no Brasil, organizado a partir de um governo autoritário, centralizador, burocratizado e que apadrinha máfias e grupos de interesse em troca de apoio político, tudo contando com uma população dormente, ludibriada pelo pão e circo que cada vez mais preenche os espaços da cultura, o que é resultado do próprio modo de agir dos petistas. Os raros aspectos de democracia que ainda restam no Brasil advêm sobretudo de uma parte da imprensa e de um grupo seleto de intelectuais e formadores de opinião, - que não por acaso não são de esquerda, ou pelo menos não da esquerda tradicional - contrários ao estado de coisas que ora se presencia no país. Estes, que remam contra a maré do pensamento monolítico, característica típica de qualquer governo autoritário, soam como único sinal de alerta perante uma nação cujas possibilidades de aspiração democrática foram enterradas pelo petismo.
É surpreendente também que, em sua declaração, Valcke tenha diferenciado o Brasil da Rússia, afirmando que a atual estrutura política russa, implantada por Vladimir Putin e posta em continuidade por seu sucessor Dmitry Medvedev, provavelmente se mostrará bem mais eficiente do que a "democracia brasileira" quando for a vez do país euroasiático sediar a Copa em 2018. Ora, existe país mais semelhante à Rússia do que o Brasil?! Definitivamente, Valcke parece estar bastante confuso. Se não, por que a FIFA escolheu África do Sul, Brasil, Rússia e Catar como países-sede para o mundial de acordo com que desejam Joseph Blatter e seus comandados? São nações governadas autoritariamente, desprovidas de cultura democrática e de instituições sólidas, dominadas por burocratas, mafiosos e grupos de interesse. Todas apresentam as mesmas perfídias, todas farinha do mesmo saco.
Depois que a declaração do secretário geral da FIFA se espalhou por sites do mundo inteiro, o belga tentou se explicar adotando a mais manjada saída pela tangente: "fui mal interpretado". Certo, quem quiser pode fingir que acredita. Valcke talvez não saiba que um dos traços culturais mais comuns do brasileiro é deixar tudo para a última hora, característica que pode estar causando laivos de preocupação ao dirigente. Que dó... Fazer tudo a toque de caixa, no entanto, irá inclusive ajudar aqueles que desejam obter benefícios com a realização da Copa no Brasil. Uma coisa, quem é atento não pode negar: se um sujeito acredita que democracia é algo negativo e se esse mesmo sujeito é possuído pelo disparate de apontar o Brasil como sendo um país democrático, então não há dúvida de que a FIFA escolheu o lugar "certo" para sediar seu evento decadente...

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