terça-feira, 16 de julho de 2013

Cidades históricas de Minas Gerais: breve memorando turístico

Igreja de São Francisco de Assis, em São João Del Rei

Juntamente com minha esposa, estive passando alguns dias nas cidades históricas de Minas Gerais. Fomos para São João Del Rei, cidade na qual ficamos hospedados, Tiradentes, Congonhas e Ouro Preto, além de termos passado por Bichinho, Coronel Xavier Chaves, Prados, Resende Costa e Santa Cruz de Minas, povoados menores da região. Por questões logísticas, não foi possível visitar Mariana.
É sempre bom conhecer lugares diferentes e, de uma maneira geral, pudemos descansar e ter contato com a arte, a cultura, a história e a natureza que permeiam o chamado Circuito do Ouro. Por outro lado, é evidente que em se tratando de Brasil, acaba-se também enfrentando certos problemas que prejudicam o turismo no país, prova de que falta uma ampla quantidade de investimentos essenciais para tornar a atividade turística sólida e geradora de divisas nestas terras. Nenhum evento sazonal ou esporádico pode suprir tal carência, pois é algo que está relacionado com planejamento, manutenção e fiscalização, elementos que só são possíveis e eficazes caso se façam permanentemente e em diálogo com a sociedade e a iniciativa privada. O enorme potencial turístico brasileiro é inversamente proporcional às precárias políticas que o gerenciam. Mais um ponto no qual há muito tempo os governos no Brasil deixam de atuar devidamente.
Em termos específicos, a cidade de São João Del Rei, dotada de grande riqueza cultural, faz saltar aos olhos a deficiência do turismo brasileiro. A localidade conta com cinco igrejas principais que se dispõem no espaço de modo a formar o desenho de uma cruz: São Francisco de Assis, a que apresenta maior tesouro artístico, Nossa Senhora das Mercês, simples, porém muito charmosa, Nossa Senhora do Rosário, a mais antiga da cidade e quase sempre fechada à visitação, Nossa Senhora do Carmo, marco do Rococó mineiro e, finalmente, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, de exterior carrancudo e sem graça, mas cheia de ouro na parte interna. Além das igrejas, há museus, memoriais, solares e outras construções históricas que poderiam atrair bem mais turistas do que a cidade hoje tem como capacidade e vocação. O número de pousadas não chega a ser ínfimo, mas em termos gastronômicos, comer uma pizza de mussarela minimamente aceitável, pode exigir um esforço hercúleo, a não ser que o turista se satisfaça com massa de pão e salsa desidratada no lugar de orégano ou manjericão fresco, artigo quase de luxo. Não demora muito para notar que a mão de obra na cidade é escassa, fato que faz o comércio sofrer, especialmente o comércio de artigos típicos, que tem mais dificuldade de contratar, exatamente porque falta estrutura turística. Mesmo sendo uma cidade relativamente pequena, São João Del Rei possui trânsito um tanto quanto bagunçado e a sinalização é ruim, quando não inexistente, sobretudo nas saídas para estradas, onde se torna ainda mais necessária (em termos gerais, a precariedade se faz presente em vários trechos rodoviários). O problema maior, no entanto, é a ocupação desenfreada nos morros que cercam a cidade, tornando-a desagradável no que tange ao aspecto urbanístico. Não há uma lei que proíba ou sequer restrinja a construção fora dos padrões históricos e arquitetônicos, tampouco uma delimitação quanto às áreas nas quais construir é permitido. Nesse caso, o argumento esquerdista e politicamente correto aponta para a especulação imobiliária como responsável, sem se dar conta da completa ausência de planejamento familiar no Brasil, grave lacuna que deveria ter sido preenchida há pelo menos quarenta anos. Pudemos reparar inúmeras mães portando crianças de colo, com mais um ou dois filhos pequenos a pé, indo na direção de algum lugar. Mães muitas vezes bastante jovens, ainda longevas em termos de período fértil. Vale ressaltar que dentre as cidades que visitamos, somente Tiradentes escapa do crescimento urbano desenfreado. O centro histórico é muito mais preservado arquitetonicamente, de modo que o casario colonial típico se harmoniza com a Matriz de Santo Antonio, também recheada de ouro, no alto da cidade. A gastronomia de Tiradentes igualmente se mostra mais sofisticada e variada do que na vizinha São João Del Rei, inclusive para quem não quer chegar nem perto de carne. Se irá se manter assim, não se sabe.

Tiradentes e a Matriz de Santo Antonio ao fundo

Em Congonhas, o conjunto artístico da Basílica de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos é sem dúvida o ponto alto da viagem às cidades históricas mineiras. Apesar de alguns argumentos bastante convincentes que retiram de Aleijadinho a aura de mestre, as cenas do calvário de Cristo, talhadas em cedro, e principalmente as estátuas dos doze profetas em pedra sabão, conferem ao local uma característica pitoresca, mais pela atmosfera do que pela arte de Antonio Francisco Lisboa, indubitavelmente grosseira em certos detalhes. De um lado uma Congonhas desfigurada pelo mesmo problema que São João Del Rei, do outro, no alto da colina, com as estátuas quase flutuando no céu junto à Basílica, a impressão de que o santuário religioso se isola do resto do mundo, mantendo resguardados a paz e o silêncio, é nítida e quase palpável. O senão fica por conta dos anos e anos de vandalismo, cujas marcas inscritas perduram no macio da pedra sabão. Felizmente, hoje em dia, a vigilância é bem mais atenta.

 
A Basílica de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas

Em Ouro Preto a visita teve que transcorrer rápida, sendo que o tempo foi suficiente somente para que visitássemos as atrações mais icônicas da cidade: a Igreja de São Francisco de Assis, cuja fachada é considerada a mais grandiosa do barroco mineiro e o teto, pintado por mestre Ataíde, o segundo mais bonito do mundo, ficando atrás da Capela Sistina, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, cuja quantidade de ouro no interior é uma das maiores no Brasil e a Nossa Senhora do Carmo, que cativa o turista devido aos azulejos portugueses junto à capela-mor, além do adro panorâmico. Se a riqueza artística, cultural e histórica de Ouro Preto faz com que a cidade lidere em importância o Circuito do Ouro, conferindo-lhe o justo título de patrimônio histórico da humanidade, a desatenção urbanística das últimas décadas, também com justiça, poderá subtrair a conquista.

O rebuscamento barroco na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto

As cidades menores e os povoados que citei no início não nos chamaram muito a atenção. Em teoria, o artesanato é o forte em todos esses lugares, mas falta criatividade para variar o repertório das peças, demasiadamente similares e que podem ser encontradas aos borbotões nas lojas de Tiradentes sem que o preço varie tanto. Fica algum destaque para Resende Costa, que apresenta leque mais amplo de peças em tear.
A viagem às cidades históricas de Minas Gerais, como qualquer outro destino brasileiro, certamente proporciona prazer ao turista, tanto culturalmente, quanto em relação à beleza natural, que se pode desfrutar em uma caminhada por trechos preservados de vegetação nativa, observando fauna, flora e respirando ar puro. Em sentido oposto, é preciso paciência para driblar os problemas típicos de um país que não explora corretamente a atividade turística. Pelo bem e pelo mal, é a cara do Brasil.

Um comentário:

  1. Eu acrescentaria, como ponto negativo da cidade de Tiradentes, a exploração dos cavalos nas charretes. Os animais ficam o dia todo expostos ao sol escaldante (mesmo no inverno) para os turistas que não têm a capacidade de percorrer a pé os pontos turísticos da cidade.
    Aproveito para indicar a Pizzaria Seu Barthô em Tiradentes para quem quer saborear uma pizza verdadeiramente paulistana. Fica quase em frente ao Chafariz de São José.

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