terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O disco mais injustiçado do Heavy Metal


A maioria dos filósofos contemporâneos acredita que não é possível estabelecer critérios de justiça em relação à arte. Isso se verifica porque no campo artístico a dimensão subjetiva se faz fortemente presente, impedindo assim a delimitação entre o que seria justo ou não. Estou de acordo com essa ideia, pois não parece haver nenhuma lógica, por exemplo, em qualificar como justo o gosto pela obra de um Caravaggio ou de um Van Gogh, nem tampouco em atribuir injustiça a alguém que não aprecie a pintura de Cézanne. É verdade que não se discute questões de gosto, muitas vezes, apenas se lamenta...
De um ponto de vista filosófico, portanto, a justiça está relacionada com elementos de reciprocidade objetiva que não podem ser aplicados à arte, na qual as preferências pessoais subjetivas devem ser consideradas. Isto posto, logo de cara poderia comprometer a reflexão que agora proponho, todavia, o que intento discutir caminha por um viés um tanto distinto. Me explico: creio eu que enorme parte das críticas recebidas pelo álbum The X Factor, lançado pelo Iron Maiden em 1995, são extrínsecas à música que o mesmo contém, logo, externas também ao campo da arte. É óbvio que nem assim poderei fugir por completo às minhas preferências, ressaltando mais uma vez que não cabe atribuir injustiça a quem não goste do referido álbum, mas talvez eu consiga jogar uma pitada de objetividade à análise.
The X Factor, segundo muito do que se ouve ou se lê sobre o disco, não é um álbum querido pela maior parte dos fãs de Iron Maiden, chegando a ser odiado por parcela considerável dos mesmos. De minha parte, não o qualifico como um clássico do quilate de Piece Of Mind ou The Number Of The Beast, citando apenas dois exemplos, mas tenho profunda convicção de que caso ele tivesse contado com as vocalizações de Bruce Dickinson, sofreria avaliações imensamente positivas.
Em 1993, Dickinson deixou o Iron Maiden devido a diferenças com o baixista Steve Harris, líder da banda. O vocalista marcou época não só no conjunto, participando dos discos mais grandiosos gravados pelo mesmo, mas também no cenário musical dos anos 1980, auge do próprio IM e da música pesada, década que legou uma quantidade absurda de clássicos obrigatórios em qualquer metalteca que se preze. Era natural que a saída de Dickinson deixasse uma lacuna impossível de ser preenchida por qualquer outro cantor, ainda que o substituto fosse, por acaso, um David Coverdale ou um Geoff Tate. Mais agravante que nenhum nome de peso veio a ocupar o posto de frontman da Donzela, mas sim um vocalista de nome Blaze Bayley, provindo da desconhecida banda inglesa Wolfsbane. Creio ser esse o motivo principal do preconceito contra The X Factor, exatamente a ausência do lendário Dickinson, mas ainda que Bayley não tivesse nem de longe a mesma capacidade de seu antecessor e que em performances ao vivo ficasse devendo bastante, penso ser correto avaliar que a sonoridade de The X Factor se encaixou muitíssimo bem com sua voz, completamente diferente em relação a de Dickinson.
Somados à saída de Dickinson, entre 1993 e o lançamento de The X Factor em 1995, ocorreram alguns outros episódios desagradáveis com o IM, tais como a separação de Harris e o sério acidente de moto sofrido por Bayley, que inclusive o deixou de molho por vários meses. Por um paradoxo do imponderável, vez por outra a reger certos momentos, o pano de fundo nefasto que acompanhou o IM na época acabou resultando num álbum, a meu ver, excelente, e que remete diretamente ao contexto “dark” em questão. A começar pela capa  do disco, que pela primeira vez na história da banda apresentou um Eddie “real” ao invés de desenhado, ideia do guitarrista Dave Murray, passando pelas letras e pelas linhas vocais de Bayley, até chegar na própria sonoridade, tudo contribuiu para fazer de The X Factor um disco pesado e sombrio, mas ao mesmo tempo repleto de melodias, passagens intrincadas, quebradas de ritmo, variações, tecnicalidade e um trabalho de bateria magnífico, o melhor já realizado por Nicko McBrain em minha opinião.
O ouvinte que se dispuser a decifrar The X Factor despindo-se de preconceitos extra-artísticos e imbuído da minúcia que a boa audição musical exige, tem boas chances de se deleitar com épicos como "Sign Of The Cross", (elaboradíssima) "Fortunes Of War", (com o indefectível ritmo cavalgado) e "Blood On The World´s Hands" (dotada de espetacular introdução de Harris). Há ainda músicas mais diretas, como "Lord Of The Flies", que possui elementos de Hard Rock, (!) e a rápida e pesada "Man On The Edge", baseada no filme Um Dia de Fúria. Não para por aí, o álbum traz ainda outras faixas memoráveis nos riffs portentosos de "The Aftermath", nas melodias belíssimas de "The Edge Of Darkness", (inspirada pelos horrores da guerra do Vietnã) e "2  A.M.", além de "The Unbeliever", que fecha o disco com uma construção musical inteligente, original e linhas de baixo absolutamente antológicas.
Aquele que já conhece The X Factor e que nunca morreu de amores pelo álbum, quem sabe, ouvindo com mais cuidado, passe a ter uma maior boa vontade com ele? Já aquele que nunca manteve contato com esse petardo da música pesada, ouça-o e tire as próprias conclusões. Aposto que não irá se arrepender e entenderá quase de imediato que, de fato, o disco foi alvo de críticas negativas, todas elas pulverizadas pela força de sua sonoridade.

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