domingo, 20 de fevereiro de 2011

Culturas, gritos de liberdade e valores universais


Fiquei uma semana pensando em escrever um artigo a respeito da onda de manifestações anti-ditatoriais que varre o mundo árabe no Oriente Médio e no norte da África. Nesse ínterim, assisti a alguns programas de TV nos quais o tema entrou em debate, quando então fui sentindo de modo cada vez mais claro que tudo aquilo que tem sido afirmado sobre a situação é vago e impreciso. Os especialistas não concluem absolutamente nada e não vão além da abertura de um leque de possibilidades totalmente amplo, o que dá a impressão final de se saber menos em relação ao assunto do que no início da conversa. O mais engraçado nisso tudo é ver a frustração de alguns âncoras despreparados, procurando eles próprios alguma opinião que possa dar manchete, mas tendo que se contentar com o ar blasé dos especialistas.
Talvez os estudiosos não estejam errados, pois é melhor e menos comprometedor ficar no terreno do possível diante de um quadro ainda turvo, do que se comprometer com uma análise peremptória que depois venha a se mostrar equivocada. Parece que os intelectuais têm se apropriado bem das estratégias discursivas que marcam a superação do paradigma pirronista pós-moderno, afinal, os estudos humanos possuem estatuto científico particular, de vez que seu objetivo é tentar ajustar distorções e oferecer interpretações verossímeis, ao invés de previsões deterministas e verdades tachativas. É preciso apenas cuidado para não expulsar o fanatismo relativista pela porta da frente, mas se descuidar permitindo que ele entre novamente pela janela.
Feita esta digressão introdutória, válida também como ressalva, fica nítido que se nem os estudiosos do mundo árabe podem oferecer análises mais definidas em relação aos acontecimentos que se verificam, tampouco eu o tentarei. Assim como eles, apenas vou traçar um rascunho da situação, sem ter nesse caso qualquer pretensão erudita.
A primeira ideia que vem à mente ao observar o que tem se sucedido nesses países árabes é que as manifestações, de caráter laico e pró-democrático, podem servir como contra-argumento para aqueles culturalistas ocidentais que sempre acreditaram na cultura como um bloco estanque e impermeável a exotismos, de modo que projetar a hipótese do desenvolvimento de sistemas democráticos no mundo árabe sempre lhes pareceu de um etnocentrismo criminoso. É curioso que pensadores desse tipo estejam sempre armados até os dentes para atacar o etnocentrismo ocidental, mas fechem os olhos para o fato de que tantas culturas não-ocidentais mantêm fortíssimas práticas etnocêntricas.
Sempre defendi, graças à leitura de Tocqueville, a noção de que, no fundo, a democracia é muito mais do que um sistema, já que depende da prática e da gestão de uma cultura democrática que só nasce no seio das sociedades. Assim, a democracia não pode, de fato, ser enxertada, pois ela é um vir-a-ser cultural. Cabe frisar que embora a democracia seja uma questão de cultura, seu antídoto contra o peso de um possível autoritarismo cultural, desde que ela própria não se massifique, é preservar o poder da liberdade individual. Qualquer pessoa está muitíssimo distante de poder afirmar que a democracia se tornará um valor e uma prática no mundo árabe, - há extensa gama de variáveis no processo, algumas delas ainda nem mesmo passíveis de vislumbre - mas se por acaso isso vier a ocorrer, estaríamos então perante uma evidência de transformação cultural das mais interessantes e emblemáticas, além do que, uma vez germinada a democracia árabe, nascida no interior dessas próprias sociedades, estaria seriamente comprometida a visão culturalista. A liberdade individual, um dos pilares de qualquer democracia real, sempre deve estar acima dos sistemas culturais: ideia com a qual terei afinidade permanente.
Outro aspecto muitas vezes negligenciado pelo Ocidente - e aqui devo fazer um mea culpa - está relacionado com o advento da modernidade, sua materialização e seus desdobramentos. Não que seja correto, como querem muitos representantes da velha esquerda reacionária, defender a noção de que nenhum tipo de inovação devesse chegar ao mundo árabe, - estaríamos caindo de novo na ladainha do culturalismo - mas muitas vezes os analistas ocidentais acreditaram que a possibilidade de haver modernização em sociedades permeadas pelo tradicionalismo islâmico nunca passou de quimera. O estudo mais aprofundado do Islã de eras passadas, bem como o próprio conceito de trocas culturais poderia modificar essa descrença. Além disso, é certamente uma grande novidade o fato de que todas essas manifestações estejam se disseminando por meio das tais redes sociais, exemplo de que a virtualidade pode se espraiar para a realidade e também de que uma tecnologia nascida no Ocidente esteja se concretizando e contribuindo politicamente em solo árabe.
Ainda é bastante cedo para traçar perspectivas, sejam elas otimistas ou pessimistas, oriundas de uma ou outra orientação ideológica. O islamismo em sua vertente terrorista poderá tirar proveito do caos que se instala após a queda de regimes, líderes oposicionistas autoritários podem derrubar um ditador e implantar outra ditadura, a cultura democrática corre o risco de não encontrar mentes virtuosas que a fertlizem e que a tornem prática, a violência humana é um fator sempre à espreita, mostrando que os acontecimentos não são pacíficos como alguns veículos insistem em afirmar, até pela reação promovida por comandantes que se arraigam ao poder. O que acontecerá em cada país que hoje se encontra sob revolução permanece como mistério e creio que seja melhor se despir da sanha de exercícios futurológicos e deixar que corra a temporalidade histórica, múltipla, incerta, desprovida de ritmo unívoco. No máximo, pode-se pensar que, dependendo dos arranjos, o abismo que criamos entre Ocidente e culturas não-ocidentais se revele mais estreito do que supomos, ou que o gênero humano ainda seja capaz de torná-lo assim, caso passe a pensar menos em culturas e tradições impermeáveis umas às outras e mais na liberdade como um valor universal. Não terá sido pouco, pelo contrário.

Nenhum comentário:

Postar um comentário