domingo, 23 de junho de 2013

Protestos, petismo, esquerdismo: alguns apontamentos


1. Há quem até hoje, passados dez anos do (des)governo petista, não tenha sido capaz de enxergar uma distinção fundamental, qual seja a de que no caso do PT, a corrupção não é mera transgressão da ética política, mas sim um modus operandi sistêmico de cuja eficácia dependeu esse tempo todo o projeto de poder do partido. Daí os quadrilheiros e seus asseclas fanatizados procurarem justificar e até legitimar a prática lançando mão do populismo e do autoritarismo. Tantas vezes a verdade é distorcida e a mentira se torna regra, que passa ela própria a ser assumida como verdadeira, estratagema tipicamente autoritário. 

2. Decorre do item 1 que tal sistematização da corrupção difere o PT de qualquer outra sigla que outrora tenha ocupado o poder. Portanto, é um erro afirmar que existe corrupção no Brasil desde que o país se formou enquanto tal, se com isso se objetiva relativizar a corrupção petista. Compreender a história, dentre outros fatores, requer igualmente a capacidade de identificar os pormenores reveladores. Nas ditaduras, todo o mal é escamoteado sob a pele de cordeiro.

3. Tão logo o Brasil obteve sua independência política em relação a Portugal, o país já recebera o primeiro atentado contra a democracia, situação que desde então é recorrente. Difundir a ideia segundo a qual o antipartidarismo pode abrir brechas ditatoriais requer, no mínimo, cuidadosas ponderações. A democracia nunca se consolidou no Brasil, pois o regime democrático, mais do que qualquer outro, exige uma cultura democrática cotidiana por parte dos cidadãos, coisa que por aqui jamais se viu - oxalá possa mudar a partir de agora. Desde que o PT assumiu o poder, a democracia sofreu golpes ainda mais duros, algo diretamente relacionado ao projeto de poder petista. O cerne do gramscianismo é a destruição institucional, mecanismo verificável na medida em que o Poder Legislativo foi sequestrado pelos interesses do Executivo quando da instauração do Mensalão. É evidente que à chefia do Executivo não recaem todas as responsabilidades, mas a transformação do Congresso em um balcão de negócios completamente inoperante no âmbito das demandas públicas e apenas atuante enquanto mecanismo de conformação aos interesses de poder, foi uma construção do hiperpresidencialismo petista. Compreender a história é, acima de tudo, traçar perspectivas, logo indaga-se: como não enxergar conexões históricas claras entre o hiperpresidencialismo petista e a implantação do Poder Moderador por D. Pedro I quando da primeira Constituição do Brasil em 1824?

4. Trata-se de uma incoerência conveniente que podemos atribuir aos petistas a sórdida tentativa de invalidar as insatisfações e reivindicações que uma enorme parte da população resolveu finalmente trazer à tona. A intolerância à corrupção, à gastança desenfreada e pessimamente planejada do dinheiro público, bem como o repúdio aos privilégios políticos que formam uma extensa rede capilarizada, cujo intuito efetivamente consolidado foi fazer com o que o Legislativo ficasse à mercê do Executivo -  e daí as críticas que se fazem à figura individual do ex-presidente e da atual - transcende a questão de classe e o espectro ideológico.

5. Historicamente, o PT e, diga-se de passagem, toda a esquerda, defenderam com unhas e dentes a bandeira da ética na política. Discurso modificado inteiramente a partir do momento em que passaram da oposição para a situação. Também quanto aos mais diversos assim chamados "movimentos sociais", compostos por minorias sectárias autoproclamadas vanguardistas, visionárias e dotadas de entes politicamente superiores, idênticas no que se refere ao embolorado conteúdo anticapitalista (inclua-se aí o MPL), o apoio sempre se mostrou irrestrito, independente dos meios de ação, todos suspeitos, e dos atos concretos, autoritários, violentos e nada afeitos à pluralidade democrática. Agora que as reivindicações se amplificaram, tanto em volume como em extensão, desvinculadas de aspectos partidários e ideológicos, reflexo direto da exaustão da população em relação a um governo política e economicamente esgotado em função de tamanha incompetência administrativa e obviamente incapaz de justificar uma porcentagem de 36% do PIB sugada com impostos, ao passo que os serviços públicos se mostram tão horripilantes, além da reprodução em escala jamais vista dos privilégios, dos favores e do fisiologismo sem contrapartida em termos de representatividade e agenda política, é execrável a postura de quem ainda se dispõe a encarar o contexto de uma perspectiva partidária e ideologizada. Seria incompreensão quanto à própria história ou, pior ainda, caso de extrema desonestidade intelectual?

6. É possível encontrar um ou outro argumento que permita aos atores sociais a defesa de programas assistencialistas. Não se condena inteiramente o assistencialismo, especialmente em um país de tão alta concentração da renda como o Brasil, todavia, o assistencialismo não pode jamais ser o mote principal de um governo cuja desatenção a políticas de formação de capital humano e infraestrutura é gritante há uma década. O assistencialismo, ao invés de se atenuar, comportamento esperado caso o mesmo fosse eficiente em reduzir a pobreza, se amplia, prova de que seu resultado mais categórico é a perpetuação da pobreza, além de criar um deplorável quadro de dependência. O esgotamento de um modelo econômico capenga, de crescimento vergonhoso, incapaz de melhorar o IDH e, mais recentemente, perigosamente afim com a inflação, se revela inconteste. É fácil topar com os intelectualoides da esquerda repetindo mantras que jogam a responsabilidade da inflação nos "empresários gananciosos", uma superficialidade generalizante. Além do fato de que tantos grandes empresários amigos do rei tiraram proveito do repasto oferecido pela estatização do capital desde que o PT assumiu o poder, os médios, pequenos e microempresários brasileiros sofrem o pão que o diabo amassou diante da avassaladora carga tributária e da burocracia. Fora isso, é quase um crime não prestar atenção ao caos logístico, à gastança desenfreada e às interferências sofridas pelo Banco Central, fatores diretamente associados ao galope inflacionário.

7. A esquerda não está autorizada a defender a democracia, pois diversas vezes assume esse sistema político como um valor burguês. Talvez seja possível encontrar em um pensador como Eduard Bernstein algo que mereça atenção em termos de democracia no seio do pensamento esquerdista. Não por acaso, Bernstein é execrado há mais de um século pela esquerda revolucionária, aquela mesma que costuma colocar as mangas de fora. Toda vez que um revolucionário ousa proclamar afinidades com a democracia, não faz mais do que tentar confundir os desavisados. Limpar-se com a própria sujeira só espalha o fedor autoritário, desnudando um profundo falseamento da história e da teoria política e, quem quer que tenha se embrenhado na leitura de Marx, sabe perfeitamente que a ditadura do proletariado, uma abstração apenas tornada concreta pela tomada de poder por parte da vanguarda partidária, tem como resultado essencial a morte da sociedade perante o Estado autoritário. Que democracia pode surgir daí? O grande Raymond Aron, que estudou Marx à exaustão, deixa uma reflexão importantíssima: passar da ditadura do proletariado, etapa sine qua non o comunismo não se estabelece na teoria marxiana, é no mínimo uma causa das mais improváveis, dado que contrapõe uma etapa anterior na qual o poder, além de fortemente concentrado, é obtido com violência, a uma etapa posterior de completa igualdade, harmonia e inexistência do Estado. A materialização trágica da revolução comunista está explícita em Lenin, em Stalin, em Mao Tsé-tung ou em qualquer outra derivação destes.

Aguardemos...

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