terça-feira, 4 de junho de 2013

O remador - um conto


Despertou. Rapidamente, fez a refeição matinal, em seguida, escovou os dentes, se aprumou e tomou seu destino. Mais um dia, mais uma leitura: um texto clássico a respeito das relações entre História e memória, de autoria de Jacques Le Goff. Um sábado, uma instrução densa e árida, porém, extremamente esclarecedora e parte fundamental na construção do entendimento daquele campo do saber. Exatamente ali, teve um ponto de partida precioso que volta e meia serve como reminiscência. Goethe ensinou a importância de guardar as coisas importantes.
Algumas situações idênticas àquela se repetiram. Outras, se assemelharam na forma, mas com a grande diferença que nem sempre seus conteúdos se revelaram dignos de valor intelectual. E foi à biblioteca em busca do Carnaval de Romans, escrito por Emmanuel Le Roy Ladurie, leitura que jamais marcava presença nos programas de estudo. Obra soberba! Também a partir de certo esforço investigativo, descobriu outros autores de grande quilate, todos eles formadores do intelecto. Todos eles caracterizados por algum grau de confidencialidade.
Logo notou que uma das vantagens do individualismo é que ele permite arcar inteiramente com as responsabilidades, tomadas de decisão e eventuais fracassos e, ao contrário do que pudesse transparecer, os sucessos obtidos eram saboreados no íntimo, na interioridade, não como o egoísta, que carrega a necessidade doentia de externá-los para sua plateia. Foi Antífon quem afirmou que para um homem dotado de alma grande, a opinião solitária de um único homem bom vale mais do que a opinião de uma multidão. Sabia, evidentemente, que os sucessos poderiam e deveriam ser compartilhados, mas longe do ambiente no qual haviam sido conquistados e das pessoas cujas posturas não eram compatíveis com o que se espera da nobreza de caráter e do princípio da liberdade de pensamento. Cedo aprendeu ser de bom alvitre manter-se afastado das vaidades, do olho gordo, da presunção e das intrigas, males corriqueiros daquele meio.
Cotidianamente, observou tantas condescendências serem oferecidas, tantos erros serem desconsiderados, tanta falta de compromisso ser enaltecida. Fez adversários e os confrontou. A troca de ideias faz parte do jogo intelectual e engrandece, mas em ambientes nos quais um grande número de gente não leva esse aspecto em conta, o que se tem como regra e resultado é a máxima do judeu galício: "quando alguém está honestamente 55% certo, isso é muito bom e não faz sentido discordar; se alguém está 60% certo, isso é maravilhoso, sinal de boa sorte e essa pessoa deve agradecer a Deus; mas o que deve ser inferido sobre estar 75% certo?; os sábios diriam que é algo suspeito; bem, que tal 100% certo?; quem quer que diga que está 100% certo é um fanático, um criminoso e o pior tipo de crápula". O fanatismo pela religião laicizada estava na raiz dessa maneira de pensar. Invariavelmente, esse era o panorama e, quem ousasse discordar 1% que fosse, estava fadado ao patrulhamento. Desconfiou que alguns conhecidos debandaram em função disso, suscetíveis a fraquezas do espírito. Nada que o desviasse de seu curso, todavia.
Algo que o irritava profundamente era o excesso de centralização, manifestado por meio do mais típico estilo burocrático. Reuniões, comitês, comissões, equipes, ..., regularmente havia ocasiões e eventos nos quais um grupelho de séquitos atingia o delírio quando seus respectivos nomes apareciam estampados em banners, folhetos ou folders. E durante tais acontecimentos, faziam pronunciamentos enfadonhos sentados atrás de alguma mesa rotunda de madeira escura, repleta de marcas que denunciavam o desgaste, ou meramente se postavam atônitos e de olhos esbugalhados a escutar a ladainha de doutrinários que levavam em excelente conta, como não poderia deixar de ser. As reuniões formavam um capítulo à parte: logo verificou que em determinado estágio esse tipo de encontro não se dissociava da própria prática a que se destinava aquele ambiente, se bem que, paulatinamente, a questão da destinação do espaço se tornava menos clara. Antes mesmo de ter atingido o momento em que as reuniões viravam regra, já vislumbrava que aquilo não lhe cairia nada bem. Desiludia-se.
Em certa época, se deparou com um sujeito vindo do exterior que perfazia o arquétipo visto como desejável naquela casa. Era dos que costumeiramente procuravam enxertar a moral em aspectos puramente técnicos, mas que não agiam de maneira a respeitar a moral nos casos em que ela, de fato, deveria ser observada. Espécie comum. Os critérios do tal sujeito eram confusos e nem sempre pesados na mesma medida. Se viu prejudicado e vítima de grande incongruência, indo então em busca de reparações. O prejuízo foi sanado, mas não sem que tenha tido que arregaçar as mangas, atendendo a uma condição. Nunca mais deixou de refletir que não poderia ter aceitado aquilo, já que o erro não fora seu. Estudos muito mais dignos de credibilidade têm se encarregado desde então de colocar as coisas em seu devido lugar. Faz parte. Outras vezes teve que suportar quem dedicasse suas horas na tentativa de misturar tudo, de confundir, de inverter e, propositadamente, não levar a lugar nenhum, mas não importava, afinal, tudo era a mesma coisa. Surpreso, viu que muitos se convenciam. Irritava-se, até que começou a perceber que poderia tirar proveito de tamanho antagonismo de princípios. Aprendeu muito, ficou conhecendo como lutar contra a perfídia daquele discurso. Um monstro do saber, nascido em Turim, afirmou que aprendeu muito mais com aqueles em relação aos quais mantinha grande distanciamento do que com quem guardava afinidades. Boa lição!
O mérito, que jamais teve qualquer relação com a disponibilidade de tempo para desenvolver estudos e habilidades, mas que, diferentemente, de acordo com a vontade e com a imaginação, abriu caminhos para a conquista de realizações, o premiou. Tratava-se de uma questão de saber farejar o tempo concedido pelo próprio tempo, conciliar deveres e,... aproveitá-lo! Adquiriu a noção de que o tempo necessita ser vivido e experienciado, o que só pode ser conseguido caso haja diálogo constante com ele. Ele informa quando e quanto, cabendo ao sujeito fazer bom uso de tais brechas. Notou que outros, que não eram capazes de lidar com o continuum aparentemente rotineiro e tedioso, forjavam artifícios na tentativa de escapar dos questionamentos e dilemas impostos pelo tempo. Enganavam a si mesmos e mergulhavam em um tempo ardiloso e vampiresco, falsamente longo, império do desperdício e da inutilidade, quando não de coisas ainda piores.
Perspectivas se delinearam após este rito de passagem. Fitou-as, sem muita pressa, contudo, as dúvidas não se dirimiram. No fundo, as condições apresentadas pecavam pelo cerceamento, pelo privilégio que conferiam aos apaniguados, verdadeiros exemplos miloszianos de mentalidade cativa. As pílulas Murti-Bing, os Ketmans, os Alfas, os Betas, os Gamas e os Deltas tomavam conta da estrutura autoritária que eles próprios haviam criado, ou na qual foram envolvidos, e que mantinham com o objetivo de controlar as ideias. Nesse cenário, era impossível construir, ou até mesmo trazer à tona contribuições esquecidas. Preferiu renunciar. Voltou-se na direção de outras paragens, mais pragmáticas. Lidou com as idiossincrasias daquilo que se ofereceu, às vezes bem, às vezes mal. Vivenciou e experienciou o tempo, sem deixar de voltar às hipotéticas perspectivas do passado, entretanto, as mesmas dúvidas continuaram impedindo que alguma escolha fosse feita. É possível até que as dúvidas tenham se expandido, mas isso não foi tomado como motivo para qualquer aflição, afinal, o tempo acabaria por desnudar a trilha a ser seguida, bastando manter a percepção aguçada a fim de identificar oportunidades. Veio, viu, venceu..., perdeu, e venceu novamente.... Remou contra a maré. Vive. E rema.

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