sábado, 18 de outubro de 2014

Lucro não é pecado: breve lição de liberalismo econômico


Todas as pessoas cujas noções sobre economia, história e sociologia foram tomadas sem que não estivessem contaminadas por uma doutrina datada e falha, até hoje enxergam qualquer atividade geradora de lucro como sendo um pecado. Infelizmente, essas não são poucas e as palavras de Friedrich von Hayek, escritas na década de 1940, permanecem plenamente atuais: "não podemos censurar os nossos jovens quando preferem o emprego seguro e assalariado ao risco do livre empreendimento, pois desde a mais tenra idade ouviram falar daquele como de uma ocupação superior, mais altruísta e mais desinteressada; a geração de hoje cresceu num mundo em que, na escola e na imprensa, o espírito da livre iniciativa é apresentado como indigno e o lucro como imoral, onde se considera uma exploração dar emprego a cem pessoas, ao passo que chefiar o mesmo número de funcionários públicos é uma ocupação honrosa". Poder-se-ia acrescentar que a mesma ideia expressa na reflexão de Hayek é aquela que, se de um lado, e por razões ideológicas e políticas, condena o lucro capitalista, por outro, não vê problema nenhum nas vantagens obtidas por uma burocracia sindical ou nos favorecimentos fornecidos a inúmeros lacaios do poder estabelecido...
De fato, a lógica da mais-valia, ainda que tenha sido refutada categoricamente por Eugen von Böhm-Bawerk há mais de um século, funciona como um canto de sereia e uma cláusula pétrea na mente dos esquerdistas. Do mesmo modo, a impossibilidade do cálculo em um regime do tipo socialista, demonstrada por Ludwig von Mises, também há décadas, parece não incomodar minimamente os adeptos de sistemas centralizados quanto à imensa contradição em que vivem mergulhados. As mentiras fáceis adoçam os ouvidos de quem pretende instalar no mundo terreno um suposto paraíso do igualitarismo baseado em resultados finais, não em equidade de oportunidades a serem aproveitadas de acordo com o mérito e a responsabilidade individuais. Assim, reforçadas pela propaganda e pela doutrinação, tais mentiras se tornam verdades dogmáticas e quando alguém ousa contestá-las, deverá estar pronto para receber os mais vis ataques pessoais. Sempre que os argumentos de um esquerdista são pulverizados, resultado até fácil de se conseguir, a tática empregada por ele é inconfundivelmente ad hominem. Não nos faltam exemplos de dissidentes comunistas que ao longo da história sofreram este tipo de perseguição.
Voltando a Mises, a questão da impossibilidade do cálculo em regimes socialistas é interessante, já que levanta várias análises adjacentes. Em um arranjo econômico no qual a produção e a precificação estão amarrados às decisões estatais, evidentemente inexiste mercado e, além da submissão dos produtores ao autoritarismo, causadora de acentuadas baixas de produtividade, a alocação de recursos e a precificação só podem ser realizadas de modo arbitrário, determinando, por sua vez, uma necessidade de controle cada vez maior por parte do Estado, quadro que não leva à outra direção senão ao fim das liberdades civis - o igualitarismo econômico provoca uma extrema concentração de poder e, dessa forma, também a desigualdade política. Como se nota, a abolição do Estado, meta final do comunismo, está em contrariedade com a própria organização econômica que ele sugere.
O resultado da planificação socialista é a carestia, de vez que sem precificação real e dinâmica e sem concorrência de mercado, não há tampouco investimentos e estímulos à produção. Incapaz não só de distribuir, como também de produzir riquezas, o regime socialista espalha a miséria e está inelutavelmente fadado ao fracasso.
No capitalismo liberal, onde o lucro baseado no trabalho e nos investimentos é estimulado, a concorrência de mercado promove a correta alocação dos recursos e a precificação surge daí como seu elemento correlato. Os empresários são obrigados a competir no mercado, buscando oferecer seus produtos de maneira a proporcionar aos consumidores uma boa relação custo-benefício, do contrário, tendem a perder a concorrência. Cabe observar que neste arcabouço, os consumidores podem e dever exercer seu contrapoder em termos de escolha perante os concorrentes, aspecto que revela o sentido duplo no mecanismo de precificação, atrelado à disponibilidade dos recursos e à concorrência, conforme a produtividade das empresas.
O fenômeno do mercado negro, potencializado pela carestia, é típico da planificação estatal. Desobrigado da concorrência e sabedor de que a demanda supera exponencialmente a oferta, o agente clandestino vê o caminho aberto para cobrar preços que nunca estarão alinhados com nenhuma regra de precificação. É nestas situações que a população se vê verdadeiramente explorada, justamente porque a incapacidade do Estado em gerir a economia promove uma demanda que não pode ser suprida dentro dos parâmetros da normalidade.
O lucro não é algo artificial surgido do nada, de uma suposta ganância dos empresários ou somente derivado de uma teoria inadequada que não considera o quesito tempo em economia nem outro fator além do capital vivo. Lucro, portanto, está bem longe de poder ser visto como pecado.

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