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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Escolha óbvia, equívoco na certa


Todo sábado chega em minha caixa de e-mail uma mensagem do Sinpro-SP, o Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo e, exceto quando o assunto tem a ver com alguma questão burocrática trabalhista, o conteúdo é inútil. Na mensagem do último sábado constava um link com os livros preferidos de meia dúzia de professores de diferentes disciplinas escolares e, como livros naturalmente sempre me despertam interesse, resolvi conferir, não sem esperar encontrar o óbvio... Não demorou mais do que um segundo e logo pude ver o Manifesto Comunista dentre as demais obras escolhidas; cliquei no título da obra e se iniciou um áudio com o professor - de História, é claro - que havia selecionado o Manifesto... justificando sua escolha e enaltecendo o mesmo.
De acordo com o professor, o Manifesto... é uma obra lapidar não apenas a respeito do marxismo, mas de todo um contexto histórico referente à modernidade industrial e das "contradições inerentes a ela". Ele exalta a pujança do texto, seu poder de aglutinação, a linguagem vibrante, a riqueza de conceitos e a influência posterior do Manifesto..., verificável em sua ótica, até os dias de hoje. Para terminar, oferece uma platitude inconsistente: "não é preciso ser comunista para gostar do Manifesto...". Ah, não?! Por que será que Marx não lhe atribuiu o nome de "Manifesto Ecletista" ou "Manifesto Pluralista"?!
Em primeiro lugar, apesar do óbvio que eu tinha certeza de encontrar antes mesmo de verificar o link, não consigo deixar de me surpreender com a escolha do Manifesto Comunista em meio a séculos de literatura que tantas maravilhas produziu: Ilíada, Odisseia, Eneida, A Divina Comédia, Os Lusíadas, Dom Quixote, O Leviatã, as obras de Voltaire, de Stendhal, de Flaubert, de Proust, de Dostoievski, de Tolstoi, de Kafka, dos escritores brasileiros dos séculos XIX e XX, de George Orwell, o Ulisses de James Joyce, ou até mesmo a Utopia de Thomas Morus, obra simples de um escritor que influenciou Marx, sendo porém, muito mais original e criativa do que o Manifesto.... E por falar em originalidade, decerto nosso professor teria tido um grande insight caso citasse o Popol Vuh dos maias, uma escolha de esquerda, mas que facilmente lhe pouparia de equívocos tão notórios. Diante de uma vastidão de escritos que captam a essência humana, além da própria qualidade da literatura, é realmente deplorável observar um professor elegendo algo que nem pode ser considerado um livro, mas tão somente um panfleto, como sua obra preferida. Vá lá apreciá-lo, mas colocar o Manifesto... acima de tudo sempre será um grande desperdício.
O Manifesto Comunista foi escrito em 1848, ainda no início da vida intelectual de Marx. Nessa época, a visão do próprio autor com relação ao comunismo ainda era totalmente pautada pelo que se pode designar como uma mistura de radicalismo à la Graco Babeuf com o romantismo tipicamente marxiano, cujo maior exemplo de herói mítico sempre foi o de Prometeu, o transgressor que sozinho ousou contestar a ordem do mundo para salvar a humanidade. A ideia de um idílio proletário baseado na virtude, na criatividade e no "homem completo", trabalhador braçal, pescador e ao mesmo tempo intelectual, esteve muito presente no jovem Marx e embora possa ser considerado um ideal final marxiano, (com altíssimo grau de utopia) ficou completamente ausente dos escritos da maturidade de Marx, momento no qual a racionalidade e o pragmatismo expulsaram o romantismo da juventude. Tão logo Marx - juntamente com Engels - passou a ser tomado pelo espírito cientificista da segunda metade do século XIX, reconheceu ele mesmo o caráter utópico das visões prometeicas e admitiu que o trabalho necessitava de uma autoridade reguladora.
Essa visão pragmática e racionalista do marxismo, além de ter dado a tônica de O Capital, obra da maturidade marxiana e na qual o autor mais se dedicou em sua vida, prevaleceu também no desenvolvimento ulterior do marxismo, ao menos em seus maiores centros. Orientou as políticas da Segunda Internacional de Karl Kautsky, do Lenin da NEP, que renunciou à "democracia proletária" de cunho romântico, característica do começo da Revolução Russa, e também do stalinismo, ainda que Stalin misturasse pragmatismo e racionalidade com outros ingredientes, tais quais o militarismo e o nacionalismo. O marxismo romântico teve mais influência nas chamadas periferias, como a Ásia e a América do Sul, fato que pode explicar a adoração de um professor brasileiro e das esquerdas periféricas em geral por uma obra como o Manifesto..., mas isso torna incoerente considerar o libelo da juventude marxista como "lapidar", "rico em conceitos" e "influência decisiva" na posteridade do pensamento marxista. Não pode haver a menor dúvida por parte daqueles que conhecem a obra de Marx, que o Manifesto... não tem nada de lapidar, tampouco possua riqueza conceitual ou tenha influenciado, sem ressalvas, o futuro do marxismo. Trata-se de um escrito recheado de generalizações e de hipérboles, quase sem nenhum conteúdo filosófico, desprovido de considerações econômicas; aborda principalmente a luta de classes, no entanto não traz conceitos marxianos como "burguesia", "proletariado", "capitalismo", "alienação", "ditadura do proletariado", "socialismo", "comunismo", "dialética" ou "materialismo" e foi redigido essencialmente com o objetivo de arregimentar seguidores para o marxismo. Até mesmo neste ponto não houve sucesso irrestrito, pois o anarquismo de Bakunin, que via em Marx um autoritário centralizador, e o nacionalismo muitas vezes disputaram espaço contra o marxismo; no caso deste último, creio que até hoje seu apelo é maior do que o internacionalismo proletário.
Raymond Aron, liberal e um dos maiores estudiosos do pensamento de Marx de todos os tempos, perguntaria "que marxismo?", mas jamais apontaria o Manifesto... de modo indistinto como obra lapidar de Marx. Nosso professor entende que o Manifesto... influenciou inclusive as principais correntes artísticas no século XX, o que é claramente uma generalização, tão amplo é o conceito de "arte". Quem se dispuser a decifrar uma letra do Rush verá a crítica que o trio promove às ideias de cunho autoritário, tais quais o marxismo. Não é preciso ir tão longe, basta se concentrar na Europa ou na Rússia, palco da primeira experiência marxista da história: as peças de Bertold Brecht ou os filmes de Sergei Einsestein não foram inspirados no jovem Marx, talvez o cinema de Vsevolod Pudovkin sim, porém, sua própria vitalidade enquanto tributária do marxismo é para lá de confidencial.
Outro fator que pode explicar a paixão do professor brasileiro pelo Manifesto... é sua fácil digestibilidade. Qualquer estudante de História que vai até a universidade já previamente doutrinado pelo marxismo, não em busca de entendimentos rigorosos a respeito da complexidade do espírito humano e do contínuo vaivém da dinâmica histórica, que compreende os mais diversos aspectos, mas tão somente imbuído da avidez por aplicar o molde marxista aos seus preconceitos, já tem no Manifesto... sua obra de cabeceira. É um escrito simples, direto e rasteiro, - será por isso visto como lapidar?! - de fácil digestão, bem ao contrário de O Capital, pouquíssimo lido, árido, complexo, enfastiante. Nenhum doutrinador do marxismo o faz utilizando O Capital como instrumento de doutrinação, nem alunos dispostos a "aprofundar os conhecimentos de marxologia" o querem empreendê-lo sob a monotonia do Marx pragmático e racionalista. Os hormônios da verve revolucionária exigem a emoção raivosa e hiperbólica do Manifesto... Nosso professor afirma em sua resenha que leu o Manifesto... quando tinha 15 anos e hoje calculo que deva ter entre 35 e 40, ou mais, prova de que a paixão ideológica permanece naqueles que desde cedo apreciam conteúdos autoritários.
O pensamento do próprio Marx e o marxismo, isto é, tudo aquilo que deriva do filósofo alemão, caracterizam-se de modo essencial e inalterado por algo que os fazem execráveis aos olhos de todo liberal: o autoritarismo. Isto posto, a leitura de autores do porte de Raymond Aron, Leszek Kolakowski ou David Priestland nos mostra que o marxismo possui várias vertentes, muitas delas notadamente marcadas por elementos divergentes entre si. Desta maneira, elencar o Manifesto Comunista, um simples panfleto da fase jovial e romântica de Marx, depositando nele toda substância de uma visão de mundo que não ficou totalmente acabada por seu próprio autor e que se desenvolveu tendo que lidar com diferenças intrínsecas, além do desconhecimento sobre Marx, é revelador da ideologização e do doutrinarismo característico de tantos educadores brasileiros. Só se deve lamentar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A coleção de besteiras de um ufanista anônimo


Quase ninguém contesta a noção de que todos os lugares do mundo possuem aspectos positivos e negativos. É possível encontrar belezas naturais deslumbrantes em países miseráveis do continente africano, cidades-modelo no Brasil, tais quais Curitiba, bem como por outro lado, a Itália, de IDH beirando os 0,900, riquíssima em história e arte, é também pródiga em desorganização e corrupção. Outro exemplo é os EUA, potência econômica global, maior PIB do planeta, altíssimo IDH, mas também marcado por episódios de violência brutal, racismo e guetos de pobreza. 
Há problemas em qualquer lugar e mesmo "paraísos" como a Noruega podem fazer surgir um Anders Breivik, porém, se não é possível nem devido desprezar esta constatação, acreditar que todos os países do mundo se igualam por apresentarem defeitos e qualidades, é um equívoco grosseiro e os dados objetivos oferecidos pelo IDH não deixam dúvida alguma sobre isso. Existem nações com mais qualidades do que defeitos e vice-versa e, de minha parte, estou seguro de que o Brasil está dentro daquelas que, infelizmente, têm mais defeitos do que qualidades. Pensar diferente não significa ser mais "patriota", pelo contrário, muitas vezes indica menos apreço pelo local de nascimento e, nesse sentido, um paralelo com as reflexões de Plutarco a respeito da amizade pode ser útil: o verdadeiro amigo é aquele que aponta os erros e não se exime de expor as verdades. Se tudo já está nos conformes, para que melhorar, para que mirar os exemplos daqueles que realmente possuem indicadores louváveis?
Navegando na Internet me deparei com apontamentos sobre o tema os quais pretendem mostrar que o Brasil está em pé de igualdade com outras nações reconhecidamente desenvolvidas. Trata-se de um texto que circula na web há pelo menos uns quatro anos, sem que possua um autor identificado, sendo a única referência, a mais vaga possível, de "uma escritora holandesa". Sabe-se que é uma farsa, merecidamente ridicularizada, o problema é que muita gente ainda cai nela. Evidentemente, não passa de lixo cibernético, provavelmente vindo da pena de um tolo patrioteiro. Dentre os aforismos trazidos pela autora anônima, muitos deles não acompanham nenhuma fonte, outros consistem de informações que por si só não permitem conclusões acerca da qualidade de vida da população, outros ainda, não resistem a um exame minimamente atento da realidade.
O texto já foi refutado exaustivamente a partir das mais diversas linhas de argumentação e eu não precisaria me encarregar de fazê-lo, porém não pude resistir, e já aproveito para pedir desculpas pelas ironias, necessárias quando se está diante de tamanha coleção de besteiras. Ao leitor interessado ou aos mais crédulos, alguns links úteis para desfazer o besteirol podem ser encontrados aqui mesmo no blog, casos da ONG Contas Abertas ou da Heritage Foundation. A quem quiser se aprofundar um pouco mais, basta uma simples pesquisa no site da ONU e de seus organismos afiliados. Um Atlas atualizado também ajuda.
Antes de continuar, adianto-me e permito ensaiar uma conclusão: em termos gerais, ao contrário do que supõe nossa autora fantasma, brasileiro não costuma falar mal do Brasil, ao invés disso, o que predomina é um tolo ufanismo e uma carência assustadora de pensamento crítico. Na ideia da maioria dos brasileiros crítica é sinônimo de chatice, infelicidade, enquanto que ser cuca fresca denota o sujeito feliz. Acredita-se em muita bobagem e os desmandos mais absurdos e arbitrários são aceitos passivamente e/ou esquecidos (em que país sério um condenado pela justiça assumiria cargo de deputado?!). Brasileiro é useiro e vezeiro em acreditar que MPB é a melhor música de todas, que o futebol brasileiro, decadente já faz uma década, ainda é o melhor do mundo, ou que as mulheres brasileiras são as mais belas, apreciação feita quase sempre com base no sexismo machista. Por outro lado, não é uma nação em que se valoriza o conhecimento e o capital humano.
Querer que o Brasil melhore de verdade é um desejo comum a todas as pessoas que ainda conservam a sanidade mental em boas condições. Os caminhos para isso existem e são conhecidos, apenas não é do interesse dos mandatários e dos oligarcas que se beneficiam do butim colocá-los em prática. Achar que tudo corre na mais perfeita ordem e que o país é tão bom quanto nações cujo desenvolvimento e qualidade de vida são reconhecidos por dados objetivos, é cair nas patriotadas rasteiras à la Galvão Bueno, ou se prestar à ingenuidade de acreditar nos discursos de Lula e cia. Que haja motivos para que se fale bem do Brasil, do contrário, o mais certo é mandar o falso patriotismo às favas!
Segue em itálico o texto apócrifo. Logo abaixo de cada item, os meus comentários...

- Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil, realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus pontos positivos e negativos, mas no exterior eles maximizam os positivos, enquanto no Brasil se maximizam os negativos. Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores porque não há nada automatizado. Só existe uma companhia telefônica e pasmem: Se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone temporariamente desconectado.

Cabe lembrar que as urnas informatizadas do TSE não fazem o sistema político brasileiro mais livre de corrupção, nem melhoram as campanhas políticas, paupérrimas em debate, tampouco contribuem para consolidar a democracia no Brasil, atualmente sob a ditadura do PT; quanto à questão da telefonia, caso se queira avaliar corretamente a qualidade dos serviços prestados na Holanda, deve-se fazer uma pesquisa de satisfação junto à população de lá; no Brasil, até não muito tempo atrás, os serviços telefônicos controlados pelo estado eram péssimos, estando bem melhores após a privatização do setor, embora as pressões da oposição comandada pelo PT à época tenham comprometido o processo até certo ponto, sem falar que boa parte dos brasileiros desmemoriados são estatólatras; como se tudo isso não bastasse, a informação de que só existe uma única companhia de telefone na Holanda é totalmente falsa.
 
- Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo - ou de lavar as mãos antes de comer. Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e com mesma mão suja entregam o pão ou a carne.

Constatação imprecisa, infundada e sem nenhum rigor, generalização arbitrária e típica daquilo mesmo que o texto quer criticar! Há nos EUA e na Europa lugares onde o asseio é totalmente preservado, do mesmo modo que no Brasil é possível encontrar biroscas chechelentas quase à cada esquina. Ademais, basta checar onde há maior índice de contaminação alimentar e o Brasil, até por falta de fiscalização, tem índices piores do que qualquer país desenvolvido.

- Em Londres, existe um lugar famosíssimo que vende batatas fritas enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta.

Qual é esse lugar? Pesquisando-se, não é possível encontrar nenhuma referência a respeito.  Se é que o tal lugar existe, as pessoas que vão até lá comer batata no "jornal" o fazem por livre e espontânea vontade. Já aqui no Brasil, são famosos os casos de oferecimento de merenda estragada a alunos de escolas públicas...

- Na Europa, não-fumante é minoria. Se pedir mesa de não-fumante, o garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador.
 
Apreciação equivocada. O antitabagismo é fortíssimo em vários países europeus, que o diga a Fórmula 1, que foi obrigada a buscar novos patrocínios depois que a cruzada contra o cigarro ganhou corpo nos anos 1990. Além do mais, como tantas outras, a lei antifumo é inúmeras vezes desrespeitada no Brasil.
 
- Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e qualquer garçom de botequim no Brasil podia ir pra lá dar aulas de ‘Como conquistar o Cliente’.
 
Mais uma generalização vazia que, além de tudo, não guarda qualquer relação com nível de desenvolvimento. Se de fato há atendentes franceses antipáticos e mal educados, o mesmo pode ser visto em qualquer nação do mundo, como já me deparei com tantos aqui no Brasil.
 
- Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo? Impõem suas crenças e cultura. Se você parar para observar, em todo filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que estamos emotivos...
 
O que é isso?! Parece um trecho copiado e colado sem manter coesão com o resto do texto. A autora é patrioteira, mas critica as patriotadas dos outros. Imposição de crenças e culturas? Hummm..., senti um fedor de pós-modernismo! E o que pensar sobre o filme do Lula, então?! Ok, vamos espalhar a cultura brasileira mundo afora... bunda, Carnaval, futebol e cerveja..., desculpem-me, mas é exatamente isso que o brasileiro em geral gosta de vender. E o nosso "imperialismo cultural" pega como nenhum outro!
 
- Vocês têm uma língua que, apesar de não se parecer quase nada com a língua portuguesa, é chamada de língua portuguesa, enquanto que as empresas de software a chamam de português brasileiro, porque não conseguem se comunicar com os seus usuários brasileiros através da língua Portuguesa. Os brasileiros são vitimas de vários crimes contra a pátria, crenças, cultura, língua, etc… Os brasileiros mais esclarecidos sabem que temos muitas razões para resgatar suas raízes culturais.

Talvez esta tenha sido a pior, faria inveja a qualquer milico dos anos 1970! Certo, vamos resgatar o Tupi-Guarani..., assim como os suiços só deveriam usar o Romanche, os australianos os dialetos aborígenes, os neozelandeses o Maori e até os EUA deveriam abolir o Inglês, medida que conduziria estas pobres nações ao desenvolvimento... Mais estranho é pensar em "cultura brasileira" em um país de tantas diversidades regionais, por sinal, muitíssimo bem preservadas. Ademais, quem muitas vezes maltrata a própria língua é o brasileiro, haja vista o ex-presidente, alguém que deveria dar exemplo, mas que lamentavelmente se orgulha do intelecto prejudicado. E chega de confundir regionalismo com o uso errado das normas gramaticais! Culturalismo por si só é deplorável, quando usado com requintes de burrice, vira nacionalismo canalha, como diria o bom e velho Samuel Johnson.

E o besteirol continua...

- Os dados são da Antropos Consulting: 

Aqui seria interessante que nossa autora anônima apresentasse os créditos de tal instituição - só o que se sabe é tratar-se de um grupo gerenciado por um antropólogo desconhecido, mais afeito à auto-ajuda do que à análise científica.
 
1. O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.

Sim, é uma verdade, mas que precisa ser relativizada. Hoje em dia até a Uganda tem tido sucesso no combate à AIDS, ao passo que outras nações africanas como Burkina-Fasso, Quênia e Zimbábue têm baixado o número de casos e melhorado o tratamento aos infectados. Observa-se que os bons resultados no combate à doença em muitas nações é fruto mais de mudanças de hábito e comportamento dentre as próprias populações do que de um suposto milagre especificamente brasileiro. De resto, o Brasil ainda sofre com doenças erradicadas em países desenvolvidos, vide a tuberculose, e apresenta índice longe de poder ser apontado como bom no caso da mortalidade infantil. A expectativa de vida também não é das melhores.
 
2. O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma.

Errado, a Austrália foi pioneira! E há ainda participação de países como África do Sul e Angola. De resto, o Hemisfério Norte conta com mais de 90% dos países desenvolvidos e não estamos em uma guerra Norte contra Sul.
 
3. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.

Logicamente, é uma pesquisa de percepção, não da realidade. Esta, por sua vez, remete ao tráfico, à violência, a Eduardo Paes ou a Sérgio Cabral... No senso comum o Rio de Janeiro é associado à irreverência, sol, calor, praia e por aí vai, o mesmo que pode ser encontrado na Califórnia ou na costa australiana e que, isoladamente, não quer dizer quase nada em termos positivos. Indagar aos familiares do menino João Hélio o que pensam a respeito do tema seria um bom exercício...
 
4. Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.

Já escrevi a respeito parágrafos acima e repito: tal fato não melhora em nada a política brasileira. É mais ou menos a mesma coisa que um produtor de melancias se orgulhar por ter colhido em sua plantação a maior melancia de todas. E daí?! E que credibilidade têm os nossos políticos eleitos por urnas informatizadas?!
 
5. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.

Comparar em termos de América Latina é pífio. Em âmbito mundial o Brasil não se destaca, além do que, deve se considerar a desigualdade regional do país, que prejudica gritantemente as áreas distantes dos grandes centros. Cabe ainda salientar o preço alto e a qualidade apenas sofrível da Internet brasileira.
 
6. No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.

Que países vizinhos? Suriname? Venezuela? Que fábricas, da Gurgel..., ou da Fiat, Ford, GM, Volkswagen, Citroen, Peugeot, Renault, Hyundai, etc. (?), todas consideradas pelas esquerdas como símbolos do "imperialismo estrangeiro", mesmo pensamento que parece ter a autora anônima. E o preço de um carro no Brasil(?), cerca de três vezes mais caro do que um idêntico no mercado norte-americano, valor absurdo fruto dos impostos.
 
7. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.

Sim, foi FHC quem universalizou o Ensino Básico no Brasil, entretanto, em relação à qualidade, as escolas brasileiras perdem feio para vizinhos como Argentina, Chile e Uruguai. Os índices de analfabetismo, analfabetismo funcional e desempenho em termos de raciocínio lógico-matemático dos estudantes brasileiros são horrendos. Fora isso, a valorização do professor é praticamente nula.
 
8. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo, com 650 mil novas habilitações a cada mês.

Ah, sim, telefonia celular que outro dia desses sofreu restrições por parte do governo. Há uma enxurrada de aparelhos, porém faltam antenas de telefonia, que para serem instaladas precisam passar por um morosíssimo processo burocrático de concessão governamental.
 
9. Telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de linhas instaladas...

Dado que leva em conta números absolutos de uma população de quase 200 milhões de habitantes e sujeita à enorme desigualdade. O serviço não é dos melhores e os impostos o encarecem sobremaneira...
 
10. Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade ISO-9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México, são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.

Igualmente uma informação baseada em números absolutos, sendo que a média brasileira por cidadão é baixa. Mesmo considerando em termos absolutos, o Brasil ainda fica atrás de países como o Uruguai.
 
11. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos.

Para quem? Para políticos e magnatas. Bem melhor e revelador de desenvolvimento real seria se o transporte público brasileiro tivesse qualidade minimamente decente. Sem falar no sucateamento de portos e aeroportos (pessimamente) administrados pelo governo. Na Holanda da nossa autora sem nome há uma ampla rede cicloviária e ônibus movidos a hidrogênio (poluição zero).

Ainda não acabou...

Por que vocês têm esse vício de só falar mal do Brasil?

1. Por que não se orgulham em dizer que o mercado editorial de livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano?

Piada! Brasileiro lê pouco e muitas vezes não sabe o que está lendo (dentre os estudantes de nível superior, quase 40% são analfabetos funcionais!). E, de modo geral, o preço do livro no Brasil é caro. Isso sem mencionar que muitas obras de qualidade ainda esperam por tradução nacional (por motivos ideológicos é bem possível que jamais sejam traduzidas).
 
2. Que têm o mais moderno sistema bancário do planeta?

Piadaça! Bancos que prestam maus serviços, com inúmeras falhas de segurança e altas taxas. Dos bancos brasileiros, somente o Itaú é reconhecido. Fora isso, os bancos estatais são instrumentos de desestabilização monetária, de gastança de verbas públicas, de aparelhamento sindical e de corrupção.
 
3. Que suas AGÊNCIAS DE PUBLICIDADE ganham os melhores e maiores prêmios mundiais?  

4. Por que não falam que são o país mais empreendedor do mundo e que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedicam considerável parte de seu tempo em trabalhos voluntários?

Quem realizou esse levantamento? Trabalho voluntário não revela nada além de altruísmo, algo até louvável, mas que certamente não é fator responsável por desenvolver uma nação. Quanto ao empreendedorismo é mais uma piadaça! O Brasil é um dos países mais burocráticos do mundo e com carga tributária mais devastadora, não à toa grande quantidade de empresas, sobretudo as micro e pequenas, não conseguem sobreviver.
 
5. Por que não dizem que são hoje a terceira maior democracia do mundo?

O que leva a autora fantasma a pensar dessa forma? Só se for a quantidade de eleitores, o que não significa absolutamente nada em termos de qualidade democrática. O que temos é um quadro de representatividade quase exaurido, recheado de políticos ignorantes e corruptos que legislam segundo interesses particulares, aumentam o próprio salário, mandam e desmandam arbitrariamente, riem da cara do povo e ainda por cima são reeleitos pela população que sofre de esquecimento e analfabetismo político. Democracia de verdade tem a ver com cultura democrática a ser exercida no cotidiano, não com apertar botão em urna.
 
6. Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados?

Raramente ocorre em outros países? Como assim, cara-pálida?! Depois de tanta corrupção o julgamento do Mensalão resultou em condenações de políticos pela primeira vez na história brasileira e ainda se é obrigado a ler isso?! Condenações impostas pelo STF, não pelo Congresso, que inclusive tenta a todo custo passar a mão na cabeça dos corruptos, não é mesmo sr. Marco Maia? Além disso, enorme porção da população brasileira, cada vez mais cooptada pelo gramscianismo PeTralha, aprova o jeitinho e tolera a corrupção.
 
7. Por que não se lembram que o povo brasileiro é um povo hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula e não mede esforços para atendê-los bem? Por que não se orgulham de ser um povo que faz piada da própria desgraça e que enfrenta os desgostos sambando.

Creio não ser preciso perder tempo em comentar tamanha aberração. Apesar da idiotice disseminada que assola o Brasil, não consigo deixar de me estarrecer ao notar que tanta gente ainda se disponha a acreditar nisso. Rir da própria desgraça, ao invés de imbecilidade e alienação, é considerado meritório por nossa autora anônima!
 
É! O Brasil é um país abençoado de fato. Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os credos. Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques. Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar toda gente. Bendita seja, querida pátria chamada BRASIL!

Este encerramento me faz lembrar daquele dito estúpido: "o Brasil é abençoado porque aqui não ocorrem terremotos, vulcões, furacões, tsunamis...". Ou então: "apesar de tudo, o Brasil é o melhor lugar do mundo para se viver". São colocações sem nenhuma relação com o desenvolvimento de um país, tolices ufanistas e sentimentalóides que desmoronam tão logo cotejadas com dados objetivos obtidos por órgãos e instituições de reconhecimento mundial. Besteirol tem limite, paciência também!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

2012 resenhado


Neste ano que está por se encerrar não fiz tantas leituras quanto gostaria, pois estive ocupado com afazeres que me consumiram um bom tempo, mas mesmo assim não deixei de estar mergulhado em certos livros que vou comentar na última postagem de 2012.
De 2009 para cá tomei contato com as excelentes biografias de Josef Stalin e Winston Churchill, escritas respectivamente por Simon Sebag Montefiore e Lord Roy Jenkins. Estava faltando apenas Adolf Hitler para completar a tríade de chefes de Estado que marcaram o contexto  da Segunda Guerra Mundial. Foi então que durante os meses de janeiro e fevereiro percorri as mais de mil páginas de Hitler, do historiador inglês Ian Kershaw. A obra é apontada como a melhor biografia do Führer, apreciação que se confirma ao longo da leitura. Kershaw obteve grande mérito ao destrinchar os meandros da personalidade de Hitler, o que faz de seu livro uma biografia não só histórica sobre o homem que projetou a destruição do Ocidente, mas também uma profunda análise psicológica da mente doentia desse mesmo homem. Chama atenção a maneira pela qual Hitler, desde a juventude em Viena, teve seu intelecto moldado tanto por circunstâncias da própria vida, como por fatores históricos, elementos que, combinados de modo sui generis pelo fanatismo característico do líder nazista e potencializados pela própria sociedade alemã, compuseram a mistura explosiva e belicista que por pouco não conduziu o Ocidente ao colapso completo. Daí, quando se lembra da figura de Churchill, ela assume ares ainda mais importantes, já que foi ele quem segurou sozinho a Alemanha nazista em 1939 e 1940. Depois de lidas as biografias dos três líderes, é impossível não considerar Churchill uma das personagens históricas mais notórias do século XX, ao mesmo tempo em que Stalin e Hitler não podem ser vistos senão como psicopatas portadores e vetores de ideias execráveis.
Apenas um único aspecto é passível de crítica na obra de Kershaw: o autor aponta o nazismo como sendo uma filosofia de direita, caracterização que muitos analistas têm rejeitado, dentre os quais eu me incluo. Costumo pensar que as utopias que marcaram a primeira metade do século XX são mais bem classificadas e entendidas se apontadas como totalitárias, importando menos a questão do espectro político. Assim sendo, ainda que nazismo e comunismo sejam diferentes no conteúdo, ambos atuam, de início, como as duas extremidades de uma linha, porém acabam se juntando e formando um círculo: o ponto de junção é exatamente onde se situam, ou seja, são extremamente próximos na forma, quase fundidos um ao outro. Se o comunismo é uma utopia que pretende construir o Paraíso futuro, varrendo da história qualquer coisa que os próceres da doutrina considerem obstáculos à causa, o nazismo é uma utopia que pretende resgatar o Paraíso perdido, também eliminando tudo que os nazistas acreditem representar a modernidade. Aqui vale mencionar Michael Oakeshott e salientar que o conservadorismo não é uma filosofia reacionária, pois sua preocupação é com o presente, com a manutenção de interditos morais que garantem a conservação da liberdade. Projetar o idílio futuro ou recuperar a Idade do Ouro é sempre totalitário. Conservar, como dizia Goethe, é guardar e proteger. Guardar e proteger aquilo que é universal, permanente e imutável e que as pessoas podem e devem carregar em sua interioridade, não reconstruir um passado cuja própria temporalidade histórica transforma incessantemente. Guardar e proteger sem destruir violentamente em nome de um futuro idílico que nunca chega e que por isso isenta seus planejadores, crentes ou cínicos de estarem agindo pelo bem, de todas as responsabilidades.
No segundo semestre efetuei a leitura de A imaginação econômica, escrito por Sylvia Nasar. O livro conta a história das transformações socioeconômicas nos séculos XIX e XX por meio da lente dos economistas mais destacados do período. A grande virtude de Nasar é trazer à tona as reflexões de teóricos um tanto quanto esquecidos fora dos círculos da disciplina, - ou mesmo dentro deles - como Alfred Marshall e Joseph Schumpeter. Marshall é especialmente interessante por ter sido o primeiro economista a descobrir a produtividade como elemento de progresso socioeconômico, produtividade essa que só pode ser eficiente no seio de um sistema capitalista, não sendo nem mesmo necessário lembrar que o cálculo é impossível em uma economia socialista.
A autora é igualmente feliz sempre que se põe, sem receio algum de fugir ao senso comum das Humanidades, a analisar as falhas da teoria marxiana. Marx escreveu sobre o funcionamento do capitalismo sem nunca ter entrado em uma fábrica ou mantido qualquer contato que fosse com o proletariado. Como se não bastasse, devido à preguiça intelectual e à necessidade sórdida de confirmar seus (pre)conceitos, Marx manipulou estatísticas à exaustão, usando índices do século XVIII como se fossem válidos para o XIX e desprezando uma série de transformações extremamente acentuadas, típicas do período, que ele próprio procurava analisar. Ainda que essas informações já fossem conhecidas desde a leitura de autores mais antigos, vide a obra essencial de Edmund Wilson, Rumo à estação Finlândia, nunca é demais ressaltar os descalabros de Marx e de seus seguidores, que insistem em fechar os olhos para tudo que derruba impiedosamente suas análises.
Talvez o mais interessante e o maior mérito do livro de Nasar, algo que já fica nítido desde o título da obra, seja o fato da autora mostrar como as ideias são capazes de mover a história. Marx, quem diria (?!), é uma grande prova disso, um sujeito que jamais conheceu o interior de uma fábrica ou que tenha sistematicamente tratado de assuntos econômicos com algum proletário (devemos atribuir a Engels a construção da teoria socialista/comunista?) designou o proletariado como única classe portadora da chamada "consciência de classe", sendo que ele próprio nunca foi um proletário, e ainda por cima defendeu a luta de classes como motor histórico. Passado cerca de um século e meio desde Marx ter erigido sua teoria, mesmo com as tragédias retumbantes provocadas pelas tentativas de colocar o socialismo/comunismo em prática, ela continua a influenciar tantas mentes incautas. As ideias movem a história, às vezes para o bem, às vezes para o mal...
Nos meses de novembro e dezembro estive lendo a recém-lançada biografia de Alexis de Tocqueville (Alexis de Tocqueville: o profeta da democracia) por Hugh Brogan. A obra é extensa e rica em detalhes, mas a impressão que tive é que lhe falta fôlego, talvez, por ser mais narrativa do que analítica. São interessantes os pormenores da vida do jovem Tocqueville, de seu círculo íntimo em termos de família e de amizades, da viagem aos Estados Unidos e da doença que o consumiu lentamente. A análise de Lembranças de 1848 é bem construída, desde a gênese da obra até sua repercussão, mas é um dos raros momentos efetivamente analíticos do livro.
Se Brogan peca pela carência de análise, seu maior erro foi abordar Tocqueville a partir de um prisma estranho ao próprio pensamento do grande liberal que ele foi. Principalmente quando se dispõe a refletir a respeito de A democracia na América e da situação da França na década de 1840, Brogan insiste em fazer uso do conceito de classe no intuito de criticar Tocqueville. Ora, se de fato e pelas circunstâncias ele foi superficial em alguns aspectos, certamente não se pode considerar a origem nobre de Tocqueville, tampouco sua visão de democracia, como fatores para acusá-lo de pouca atenção a questões sociais. Dentre os tantos méritos do multipensador francês, um dos maiores foi ter conseguido romper com os preconceitos estamentais de sua condição de nascimento e nesse sentido ele foi um homem intelectualmente íntegro, politicamente atento e historicamente perspicaz. Tocqueville foi um dos primeiros, senão o primeiro, a perceber que a democracia era um sistema político e sociocultural que havia chegado para permanecer na história do Ocidente. Para ele, a democracia não era uma situação a ser encarada a partir de concepções classistas, que nunca ocuparam papel preponderante em sua obra, mas sim levando-se em conta a legislação, os costumes e a moral como preceitos sobre os quais a ordem democrática deveria se assentar para que não desviasse na direção do despotismo da maioria. O grande problema tocquevilliano, sublime e profundamente atual, nunca foi outro senão pensar as possibilidades de manter a igualdade sem suprimir a liberdade, possibilidade em relação à qual, nunca é demais salientar, ele encarava como perfeitamente plausível, mesmo que sua França envolta em turbulências insistisse em querer apontar o contrário.
Para Tocqueville, todo homem que espera da liberdade algo mais do que a oportunidade mais elevada para o ser humano, a própria oportunidade de ser livre, não passa de uma alma medíocre. É uma consideração que vale pelo caráter de universalidade, permanência e imutabilidade que mencionei mais acima e que assim o coloca no rol dos grandes pensadores da história. Feliz 2013!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Onivorismo: a falácia do condicionamento biológico


"O ser humano é onívoro". Lançando mão deste argumento, muitas pessoas procuram justificar sua escolha em se alimentar de carne. Destaco a palavra "escolha" pois é disso mesmo que se trata quando o assunto é a alimentação na contemporaneidade. Note-se que a afirmação "o ser humano é onívoro" é determinista, dado que remete a uma condição biológica, enquanto as escolhas alimentares orientam-se a partir de lógica bastante distinta.
Será que quando alguém come picanha, linguiça de porco, peixe crú, ou qualquer outro tipo de carne, age movido por uma questão de determinismo biológico, algo que impele o sujeito irremediavelmente sem lhe oferecer oportunidade de escolha? É claro que não, basta pensar por instantes e logo se conclui que aquilo que comemos é puramente escolhido. Na pior das hipóteses, comer carne é um hábito que pode até ser difícil deixar de lado, mas sempre, em última análise, é uma escolha. Hábitos, por mais arraigados que sejam, podem ser mudados se houver força de vontade, sobretudo se forem hábitos perniciosos. Assim sendo, o argumento do onivorismo logo cai por terra. No entanto, é possível recorrer à Antropologia e à História para torná-lo ainda mais refutável.
Biologicamente, animais como o leão ou o lobo são carnívoros, o que significa que na natureza, evidentemente sem o mesmo poder de escolha que o ser humano possui, eles estão condicionados a caçar e se alimentar de carne. Um cão doméstico, como todos sabem, é diferente. Não vivendo em estado selvagem, ao contrário dos lobos e dos cães selvagens, - seus ancestrais - ele adquiriu hábitos humanos, isto é, além da carne, passou a se alimentar também de frutas e legumes, tornando-se onívoro como o Homem. Nesse caso, não houve escolha por parte do cão, mas um dado biológico foi modificado pelo processo evolutivo: a domesticação alterou a condição biológica do cão; do exclusivo carnivorismo do canis selvagem para o onivorismo do canis familiaris. Ressalte-se que atualmente já existem no mercado rações compostas apenas por ingredientes de origem vegetal, o que permite que cães sejam mantidos com alimentação vegetariana. Se até o cão doméstico, desprovido da opção do que comer e cujos ancestrais são carnívoros, consegue viver tranquilamente à base de alimentação vegetariana, o que pensar a respeito do ser humano?
No período Pré-Histórico, durante milhões de anos desde o surgimento dos primeiros hominídeos até bem depois do advento do Homo sapiens sapiens, quando a agricultura se sistematizou por volta do ano 10.000 a.C., os grupos humanos viveram sob a condição do nomadismo. O alimento não estava disponível a todo momento, era preciso ir atrás dele: alimentar-se, por eras a fio, foi algo fortuito. Qualquer um há de convir que quando a comida não está à disposição assim que a fome bate, a escolha com relação aos alimentos fica em risco. Tal situação era regra no mundo pré-histórico, mas não atualmente e, ainda que a pobreza possa causar exatamente o mesmo efeito, não é uma regra para grande parte dos habitantes do planeta, que escolhem tudo aquilo que querem comer.
A evolução é um fato na história humana. Graças à tecnologia, a produção alimentar alcançou níveis que geram excedentes enormes de alimento, por isso não há fome em massa, como acreditava Thomas Malthus. Se muitos ainda passam fome no século XXI, o problema é socioeconômico, agravado, diga-se de passagem, pela pecuária. O certo é que ninguém sai por aí caçando para tentar obter alimento. As pessoas vão ao supermercado e lá encontram uma variedade ampla de alimentos que não contêm carne. A maioria, contudo, escolhe comprar carne, não devido ao onivorismo biológico do ser humano, mas porque quer comer carne, ou porque, aparentemente, a alimentação é um hábito tão trivial que não suscita para esta mesma maioria perguntas como: "de que modo são criados os animais?"; "de que modo são abatidos?" Ou a mais crucial delas, que envolve exatamente a possibilidade de escolha: "é preciso realmente comer carne"?
O Natal é um época, talvez mais do que qualquer outra, na qual a escolha dos pratos que farão parte da ceia mais se aplica. É uma oportunidade ótima para tomar a decisão definitiva de se tornar vegetariano. Como se observa, o argumento do onivorismo é facilmente refutado em vista da existência de inúmeros alimentos isentos de carne. Posso aceitar que muitas pessoas tenham dificuldade para se livrar do hábito de comer carne, mas elas não podem se furtar aos questionamentos filosóficos e ecológicos passíveis de reflexão uma vez conhecidos os malefícios econômicos e espirituais inerentes à pecuária. Se esconder atrás de um condicionamento biológico que não resiste às transformações de fundo antropológico e histórico pelas quais a humanidade passou ao longo de milhões de anos, é somente mais uma frágil tentativa de não encarar de frente as responsabilidades que a alimentação compreende.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Não gosto de gente consciente e moderna. Sou mesmo é alienado e retrógrado!


Nunca foi tão fácil, como atualmente, ser considerado consciente e moderno. É resultado do que costuma ser designado por "inclusão social", um eufemismo (e uma desculpa) para formação deficiente. Ao invés do estudo sistemático, da reflexão acurada a respeito dos problemas que permeiam a vida humana, discutidos pelos mais diversos pensadores, das mais variadas escolas filosóficas e da procura por um pensamento original, abrangente e de tendência universalizante, tudo o que é necessário para formar o cidadão culto, basta seguir como um autômato certos lugares comuns tão frágeis quanto um castelinho de areia à beira-mar, mas que repetidos à exaustão em um contexto massificado, no melhor estilo Goebbels, se tornam verdades absolutas. Nestes termos, pode parecer um tanto quanto abstrato para aqueles que estejam dispostos a ter seu intelecto moldado por imbecilidades, todavia, alguns comportamentos concretos verificáveis em nosso cotidiano funcionam como o melhor dos manuais. Senão, vejamos:
Um sujeito morre com quase 105 anos de idade, quase toda a imprensa cria um dramalhão sentimentalóide em cima do fato e a ralé segue atrás, tal qual um autêntico exército de zumbis. Se antes da morte do ancião comunista, oito de cada dez brasileiros mal possuíam informação sobre a pessoa, as ideias e a obra de Oscar Niemeyer, depois do barulho midiático, é possível que esse número tenha caído para sete, quem sabe seis entre dez?
Ouvi em matéria da Rádio Bandeirantes não sei qual jornalista consciente e moderno (são tantos!) afirmando que o próprio Niemeyer sempre declarava se preocupar não apenas com o lado estético de seus projetos, mas sobretudo com a destinação que seria dada aos mesmos. Será mesmo que ele foi tomado por um laivo sequer dessa tão correta preocupação quando projetou Brasília? Não sei, talvez ele fosse ingênuo quanto ao futuro da política no Brasil, de qualquer forma, não chega a ser o melhor exemplo. Mas e quanto à Arena de Barretos? Ora, seria demais pensar que um comuna pudesse se importar minimamente com a causa animal, mesquinharia tipicamente burguesa. Me ocorreu ser justo indagar se Niemeyer, tão cioso com a utilização ulterior de suas obras, teria se recusado a projetar algum calabouço para presos políticos de ditaduras comunistas, ele que tantas vezes esteve na URSS...
No Brasil, quando um famoso morre, vide Ayrton Senna, Hebe Camargo e agora Niemeyer, é alçado imediatamente à condição de santo imaculado, não importando nada além dos feitos profissionais e artísticos do morto, ainda que estes sejam perfeitamente passíveis de críticas ou relativizações. E ai de quem ousar fazê-las; prontamente é acusado de ofender a memória do morto, incapaz de entender seu legado, alienado e blasfemo. Sr. Niemeyer, "poeta das curvas", "gênio da arquitetura", me desculpe por palavras deveras indelicadas contra alguém que tanto lutou por seus ideais e ainda nos brindou com tão belas obras. Alcancei a consciência e a modernidade, viram como é fácil?!
E por falar em blasfêmia, o vocabulário de conotação religiosa andou passando pelas línguas da esquerda. Logo dela! O mesmo pessoal que não dá um descuido em patrulhar os discursos opostos aos seus cânones, (quatro anos de PUC, sei como poucos o que é isso!) que legitima quaisquer de suas ideias ou atos, por mais inescrupulosos e atrozes que sejam, simplesmente por crer que os mesmos atuem como vetores miraculosos da justiça e da igualdade, é também pródigo em se fazer de vítima. Salvo raríssimas exceções, o discurso esquerdista é só conversa mole: justiça, igualdade,... que nada! Falácias das quais a esquerda se apropriou na tentativa de maquiar sua verdadeira intenção: chegar ao poder, corrompê-lo, destruir suas instituições democráticas e nele se perpetuar. Qualquer leitor colegial de George Orwell com um pouco de personalidade para não se deixar doutrinar por professores amestrados e alinhados com o esquerdismo sabe disso. Mas lembre-se, o legal é ser "consciente" e "moderno", logo, nada de Orwell, que nunca foi capaz de vislumbrar o potencial transformador do comunismo...
No site de uma revista de qualidade inexistente, li uma postagem cujo teor era o seguinte: o STF fez reviver os tempos da Inquisição e de Torquemada, perseguiu arbitrariamente e puniu sem provas. Bravo! Moderníssimo! O autor do post tentou ainda conferir ares de erudição ao seu comentário e citou o ensaio O inquisidor como antropólogo, do historiador italiano Carlo Ginzburg, com isso procurando fazer entender que os ministros que julgaram a Ação Penal 470, exceto uns e outros, forçaram a condução e o desfecho do que já haviam concluído até então segundo interesses outros que não a lisura jurídica. Como se percebe, o comentário não fez mais do que papagaiar o fraquíssimo discurso do ministro Dias Toffoli proferido em uma das sessões do julgamento. Quem acompanhou minimamente a atuação dos ministros pôde notar com clareza a superficialidade das apreciações de Toffoli, - reprovado duas vezes em concursos para a magistratura estadual paulista - bem como seu conhecimento jurídico bem abaixo da média de seus companheiros de STF, mesmo aqueles que tentaram de todas as formas dar uma mãozinha aos envolvidos no escândalo do Mensalão. A idiotice da postagem salta aos olhos, pois continuar batendo na tecla de que o julgamento se fez sem provas é no mínimo imoral, é tapar os olhos para uma enxurrada de evidências, que aliadas ao contexto, como defendeu a ministra Rosa Weber, - até mesmo ela, que em muitos pontos foi condescendente com envolvidos no escândalo - levam sem margem nenhuma de dúvida à justa culpabilidade dos condenados. Isso é elementar, porém, as imprecisões históricas da argumentação nem sempre ficam claras aos olhos dos leigos ou menos atentos. Durante a Inquisição a Igreja Católica fez uso dos processos inquisitoriais para ajudar na construção de sua ortodoxia, ainda não plenamente definida à época. Um estudo das obras do historiador português Francisco Bethencourt, do próprio Ginzburg e do Malleus Maleficarum permitem compreender a base subjetiva e não-evidencial que pautou a ação dos inquisidores, o que nao é surpresa quando se leva em conta que estavam em jogo questões religiosas e minúcias teológicas inseridas no alvorecer da Idade Moderna. É mais do que óbvio que isso nada tem a ver com as práticas que deram forma ao Mensalão e ao seu julgamento. Ressalte-se também que naquela época a Igreja Católica representava o poder estabelecido na maior parte da Europa ocidental, condição que tornava algo fácil a manipulação de seus interesses, já hoje em dia quem está no poder de forma bem enraizada é o PT. Se o autor do post fez uma (péssima) leitura de O inquisidor como antropólogo, estamos autorizadíssimos a inferir que ele nunca ouviu falar em Mitos, emblemas, sinais... ele e o ministro Dias Toffoli. Entretanto, na visão dos conscientes e modernos nada disso é válido, uma vez que o julgamento sofreu pressão da mídia golpista (a mesma que adere ao governo federal até no quesito futebolístico e que teceu loas ao comunista Niemeyer).
Ah, a imprensa! A imprensa requer a mais profunda e imbuída de consciência e modernidade análise caso se queira romper com o pensamento conservador dominante. Conservador, dominante? Hummm, deixa para lá... Cada vez com mais frequência nota-se nas redes sociais ou em situações ao vivo o pedantismo ideológico e o  tom professoral dos falsos intelectuais, os mesmos que louvam Niemeyer e que ainda se prestam ao sórdido papel de reverenciar o PT. Tal prática é especialmente recorrente quando se trata da revista Veja, que pode ser criticada normalmente desde que o viés puramente ideológico não seja o parâmetro, o exato contrário do que fazem. Eles reputam a si próprios a capacidade exclusiva de instruir a multidão sobre o que ela deve ou não deve acreditar. São os intelectuais orgânicos de Gramsci. Ou os ideólogos do establishment, leitores do Manifesto Comunista, do Dezoito do Brumário, nunca de O Capital, muito extenso e complexo. Desta obra, só retêm e difundem, como um relógio de repetição, os clichês hiperbólicos. Adoram também as teses de Walter Benjamim, marxismo poético enfadonho, os livros de Eric Hobsbawm, marxismo fast food e de Foucault, mistura psicodélica de pós-modernismo orgiástico com marxismo e sua crítica à "sociedade burguesa". Haja! O problema deles com a Veja é por ela contar com articulistas de direita e por não ter rabo preso com o governo do PT, independentemente do que o veículo noticia, tudo mentira com vistas ao golpismo, segundo os tais. Quanto a outros veículos que sabidamente recebem verbas do governo, não têm nenhuma crítica a levantar. Será mesmo que estão preocupados com a imparcialidade jornalística? Receio que não! Mas não importa, postar no Facebook que quem lê a Veja não tem cérebro e que esse veículo é o mais vil, golpista e preconceituoso, é sinal inconfundível de consciência e modernidade.
E os acontecimentos que se sucederam no intervalo da partida entre SPFC vs. Tigre pela final da Copa Sulamericana, como fatalmente não poderia deixar de ser, trouxeram à tona a já manjada patriotada tupiniquim. Sem ninguém ainda saber exatamente o que teria provocado a confusão, presenciei colegas meus de profissão vociferando contra os argentinos, não contra o time do Tigre especificamente, - o que seria compreensível se viesse de torcedores são paulinos movidos pela paixão - mas contra os argentinos como um todo, como povo da Argentina. Tive a nítida sensação de estar diante de vários Galvões Bueno. Patético! Depois, fiquei sabendo por minha mãe que um apresentador da Record, cria de Datena e afins na maneira de se comunicar, afirmou ser o povo argentino mal educado. Educado é ele... consciente e moderno também!
Quando a imprensa adoça a vaidade dos conscientes e modernos, ela deixa de ser golpista... Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, é diferente, um verdadeiro oásis no meio de tanta baboseira. Em uma análise isenta e ponderada, ele perguntava se brasileiro é um primor de retidão, educação e polidez a ponto de se colocar em posição de superioridade junto aos vizinhos. Diria um cônscio e moderno: "ora, que se dane esse jornalista ranzinza, falar mal do Brasil, cospe no prato que come, não é patrioteiro..., ops, patriota!" Mauro ainda salientou a atitude do brasileiro Luís Fabiano no jogo de ida, responsável por criar tensão exacerbada. Todo sujeito que procura assumir ares superiores lançando mão de sua nacionalidade é para mim uma criatura das mais abjetas e desprezíveis. E geralmente brasileiro adora agir assim. Porém, ser patrioteiro, a despeito da tamanha carga de nacionalismo tacanha que implica, é também visto como conduta consciente e moderna perante a patifaria da ralé e de seus prescritores.
Quanta consciência, quanta modernidade! Eu, como sou alienado e retrógrado, estou na época e no lugar errados, bem melhor estaria se me deparasse no cotidiano com a crítica isenta, com análises livres de ideologização, com a intolerância face aos corruptos, com uma visão planetária ao invés de nacionalista, características tão odiadas pelos conscientes e modernos...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Um pouco sobre educação, ensino e pesquisa: em defesa de um paradigma democrático e interpretativo, mas também universalizante


Os escritos seguintes são fruto de um pedido de uma colega de trabalho. Ela cursa Pedagogia e as questões formuladas pela instituição superior deveriam ser respondidas por professores, sendo que fui um dos escolhidos para tanto.
Como já expus anteriormente, houve uma época em que eu pensava, ingenuamente, que a educação poderia resolver os problemas do Brasil. Permaneço imbuído da certeza de que uma nação desenvolvida precisa, necessariamente, ser uma nação culta e letrada, perspectiva oposta à concepção pós-moderna, para a qual não existe conhecimento universal independente dos indivíduos e dos pequenos nichos socioculturais nos quais estes se inserem (ou deixam de se inserir...). Assim, de acordo com o pós-modernismo, a educação nos moldes em que se pratica em países como a Finlândia ou o Japão, não é nada mais do que um cânone imposto pela "sociedade capitalista". Abomino o relativismo pós-moderno, tenho ojeriza à guetização que está implicada nesta forma de ver o mundo. Contudo, para alguém que adota o paradigma do liberalismo clássico, como eu, não é exatamente a valorização da educação per se que está em discussão, mas o tipo de educação a ser empreendida. Há algum tempo, concluí que a educação brasileira, como esta se apresenta desde a segunda metade dos anos 1970, - doutrinária e marxista - não só é absolutamente incapaz de promover o desenvolvimento do Brasil, como contribui para torná-lo ainda mais um país atrasado. As respostas que dei para minha colega revelam um pouco desta discussão, por isso resolvi trazê-las até o blog. Seguem abaixo:

1- O que você entende por educação, ensino e pesquisa?
R: A meu ver, a educação, além da construção das habilidades e competências relacionadas à formação mais técnica do aluno, tem muito a ver também com a formação do cidadão, aspecto no qual os valores civis, éticos e morais são parte fundamental. O ensino é um processo de interação entre professor e aluno no qual o conhecimento a respeito tanto da parte técnica da educação, como da parte civil, ética e moral, não passa somente pela transmissão de informações, mas principalmente pela reflexão sobre estas, o que torna o conhecimento uma questão de construção. A pesquisa é também um processo em que o conhecimento é construído por meio de interpretações que devem ser fundamentadas em fontes de pesquisa; as conclusões às quais o pesquisador chega são parte do saber a ser continuamente interpretado, debatido e revisto pelas sociedades humanas, trabalho este que deve estar baseado, obrigatoriamente, nos paradigmas científicos conhecidos.

2- Para você, qual a contribuição da pesquisa enquanto princípio educativo para a prática pedagógica do professor?
R: Penso que através da pesquisa o professor poderá levar para a sala de aula novas descobertas realizadas no campo da pedagogia a serem colocadas em prática (caso se façam pertinentes e possibilitadores de bons resultados; para se fazer essa avaliação, as pesquisas precisam ser postas em discussão com coordenação e corpo docente, bem como eventualmente testadas em sala de aula). Descobertas científicas referentes a outros campos do saber igualmente podem ser debatidas com os alunos, pois são instrumentos a mais no processo de construção do conhecimento.

3- Qual a concepção sobre a utilização de materiais didáticos em sala de aula e qual a importância deles no processo educativo dos alunos?
R: Todo material didático serve de apoio e referência na construção do conhecimento. O cuidado a ser tomado é não ficar restrito a um único tipo de material, nem tratá-lo como se fosse um depósito de Verdade sem que se façam necessárias interpretações e reflexões sobre as informações trazidas por esses materiais. No campo das Humanas, as análises trazidas por um livro ou qualquer outra forma de comunicação, decorrem dos condicionamentos intelectuais do autor e, a despeito do compromisso com a verdade por parte deste autor, não se pode ter a pretensão de ser o dono da Verdade. O essencial é que toda análise e toda reflexão devem ser dotadas de argumentação sólida e referências científicas.

4- Cite alguns materiais didáticos disponíveis em sua escola.
R: São usados sobretudos livros e filmes. Para as disciplinas específicas que leciono (História e Geografia), também faço bastante uso de mapas, imagens e, quando possível, de artigos veiculados na imprensa.

5- Como você utiliza os materiais didáticos em sala de aula? (constrói com os alunos, leva material pronto, solicita que os alunos levem materiais para enriquecer a aula e o conteúdo, utiliza os recursos disponíveis na escola? Qual (is) disciplinas(s) utiliza (m) mais materiais didáticos?; justifique o motivo.
R: Utilizo de todas essas estratégias. Como se pode inferir pelas respostas anteriores que dei, procuro sempre orientar os alunos a interpretarem as informações contidas nos mais diversos materiais didáticos. Até mesmo com relação aos livros didáticos, que são materiais prontos, busco orientar os alunos que aquilo que os livros contêm é resultado de interpretações de autores que escreveram tais livros, bem como das fontes utilizadas para escrevê-los. De acordo com minhas referências intelectuais e no âmbito das disciplinas que leciono, procuro sempre tomar o cuidado de não cair num relativismo absoluto, ou seja, as interpretações não são meros pontos de vista, meros achismos, pelo contrário, são resultado de ampla pesquisa, documentada e defendida com sólidos argumentos. Sendo assim, é necessário estudar e discutir detidamente as diversas interpretações buscando analisar as que são mais válidas, as que são parcialmente válidas e as que são de fácil refutação. Esse processo, repito, se faz a partir da interação professor-aluno. Não posso afirmar nada sobre disciplinas do campo das Exatas e Biológicas, mas no que se refere às Humanas, acredito que usar uma boa variedade de materiais didáticos é muito importante, justamente para possibilitar ao aluno o contato com interpretações diferentes. O problema é que dependendo da linha pedagógica de uma deteminada escola, o professor fica restrito a um livro que ele precisa terminar ou uma apostila cuja dinâmica se faz aula por aula.

6- Você promove/promoveu adaptações em materiais didáticos diante de necessidades educacionais especiais de algum aluno ? Qual (is)? Como foi esse processo?
R: Não só em virtude de necessidades especiais de algum aluno, mas muitas vezes na tentativa de facilitar o entendimento promovi adaptações, sobretudo no que se refere ao vocabulário (algo em relação ao qual os jovens de hoje apresentam imensa dificudade, sendo preciso tempo, trabalho e muita paciência para que eles adquiram um repertório mais amplo). Em outros momentos, quando percebi que havia possibilidade de forçar e fazer com que os alunos aprofundassem algum tema, igualmente adaptei tentando tornar as coisas de modo a exigir mais deles, criando por exemplo, questões extras em cima de algum texto, ou trazendo um autor de interpretação diferente para dialogar com o que já constava do material didático. É muito difícil prever de antemão se tais adaptações darão certo ou não, o que depende de uma enorme gama de fatores, alguns deles meramente casuais. Eu diria que costuma ser proveitoso em aproximadamente 70% dos casos.

Estas foram as primeiras questões que respondi. Posteriormente, outras foram propostas, como se segue:

7- Apresente as definições de educação, ensino e pesquisa e estabeleça uma articulação sobre a importância dessas ações para a atuação do professor no contexto educacional.
R: Educação: processo de formação de competências e habilidades, bem como de formação ética e moral do aluno, envolve ainda a troca de experiências e o debate sobre o conhecimento na interação entre professor e aluno; Ensino: transmissão de informações, orientação e reflexão sobre como lidar com as informações transmitidas no sentido de aproveitá-las no debate sobre o conhecimento; Pesquisa: geração de conhecimento a partir da problematização de fontes de pesquisa e obtenção de conclusões/interpretações.
O professor deve ser, além de um transmissor de informações, principalmente um orientador que capacitará o aluno a refletir sobre as informações, fazendo com que este entenda que informação é matéria-prima na produção do conhecimento. O professor pesquisador, em tese, está bem capacitado a ensinar, já que fará com que os alunos diferenciem informação de conhecimento e a relação existente entre ambos. A pesquisa é importantíssima nesse contexto, pois por meio dela o conhecimento é produzido e colocado em debate na sala de aula. A partir disso, tem-se a meu ver, os fundamentos para uma educação completa, que deve contemplar competências e habilidades, mas também a formação do cidadão, algo que só pode ser alcançado com debate sobre o conhecimento já produzido, oferecendo ao aluno uma bagagem cultural e universal que lhe tornará a apto a entender e interagir com a realidade que o cerca. É também partindo daí que o aluno pode ter sua curiosidade despertada para que ele próprio realize pesquisas e possa contribuir produzindo algum conhecimento.

8- Para você, de que maneira os recursos didáticos foram evoluindo ao longo da história da educação?
R: Pensando especificamente na minha área de docência, creio que os recursos didáticos estão bem mais atraentes e otimizados em termos visuais. São muito mais ricos em iconografia e variedade cartográfica do que eram quando eu fui estudante, há cerca de 20 ou 25 anos. Mais recentemente, muitos recursos integraram a tecnologia como meio de transmissão de informações mais precisas e atraentes para um público já nascido sob a influência da Revolução Tecnológica e da Nanotecnologia.
No entanto, considero um equívoco acreditar que haja uma evolução, em sentido lato, dos materiais didáticos apenas porque estão mais atraentes no quesito visual ou mais afinados com novas tecnologias. Penso que muitos materiais didáticos são totalmente comprometidos pelo dogmatismo e pelo exacerbo ideológico. Na minha área, por exemplo, o marxismo ainda é, inúmeras vezes, tratado como Verdade única e como chave incontestável para a resolução dos problemas da humanidade, mesmo com a enorme quantidade de falhas grotescas já exaustivamente discutidas e apontadas presentes em uma teoria que se pretende profética e enxerga o desenrolar histórico como uma necessidade pré-definida pelos seus próprios parâmetros, o que ao longo do último século e meio vem se mostrando cada vez mais uma tremenda falácia. São raríssimos os autores que se preocupam, por exemplo, em discutir o capitalismo não como um sistema que engolfa todo o resto das dimensões sociais, mas como uma das dimensões possíveis de uma determinada sociedade, e que depende das outras - política, cultura, história, mentalidade - para funcionar de um modo ou de outro. Mais um exemplo é a visão a respeito da ditadura castrista em Cuba, em muitos casos considerada um modelo a ser louvado e adotado em outras localidades. Não é possível ver nisso nada além de pura contaminação ideológica, extremamente abjeta. Há aspectos que podem e devem ser colocados em debate, não uma ditadura, algo a ser condenado independentemente de espectro político.

9- Escreva um texto apresentando a pesquisa enquanto princípio educativo enfatizando a atuação do professor pesquisador.
R: Como exposto na questão 7, é por meio da pesquisa que se produz conhecimento. Assim sendo, o professor pesquisador está capacitado a levar o conhecimento produzido para o interior da sala de aula. Lá esse conhecimento será colocado em debate e confrontado com outras interpretações. Neste processo, o professor deve fazer com que os alunos entendam os argumentos que norteiam uma pesquisa e criem, eles mesmos, argumentos capazes de defender ou refutar as diferentes interpretações, sem doutriná-los na preferência por alguma delas. É então o aluno, que trabalhando e refletindo a partir do que é trazido pelas pesquisas, se tornará sujeito do conhecimento, sendo capaz de lançar argumentos existentes ou próprios em defesa de sua posição. O trabalho de pesquisa é importante porque mostra ao aluno que o conhecimento não está pronto e depositado em um "baú" de onde se retira alguma Verdade definitiva, mas que, ao contrário, as interpretações, quando solidamente argumentadas, contribuem para construir verdades (com v minúsculo) que atuam como "tijolos" na composição de um imenso "painel" que faz parte da cultura humana. É daí que o aluno se torna sabedor de que informações não são o conhecimento em si, mas apenas matérias-primas a partir das quais o conhecimento é continuamente produzido, sendo necessária a filtragem e a reflexão em cima das informações. Tal processo pode contribuir ainda promovendo o gosto pela pesquisa e pelo conhecimento entre os alunos, quem sabe, (?) fazendo com que eles próprios ajudem na construção do conhecimento.


*OBS: evidentemente, a postura que assumo deve ser entendida exclusivamente no âmbito da minha área de docência, as Humanidades; um professor de Exatas, por exemplo, certamente terá uma perspectiva teórica e pedagógica diferente em certos aspectos (ou em muitos), haja vista que os ramos do saber possuem especificidades que precisam ser consideradas para que o processo educacional se conduza da melhor maneira em cada disciplina.

Sempre que possível, tento orientar minha prática docente segundo tais bases, porém, há entraves sérios e de difícil superação que viciam a estrutura educacional brasileira, algo que começa no Ensino Superior, de onde sai um grande número de professores que doutrinam os alunos. A universidade é o centro formador de docentes e, uma vez que a universidade brasileira, na maioria dos casos, se encontra assolada pelo marxismo, pelo pós-modernismo (não mais do que uma derivação do marxismo) e pela ideologização socialista, pensar em uma educação democrática, interpretativa e universalizante (no sentido da complexidade do conhecimento, da liberdade e da moral), é o mesmo que arar no deserto.