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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Para que serve um museu? (1)


Quando me deparo com perguntas a respeito da utilidade de alguma coisa, seja um simples objeto ou instituições complexas como um museu, a primeira ideia que vem à mente é sua utilidade prática e imediata, talvez devido à acepção que a palavra "servir" suscita. Nesse sentido, não é difícil apontar, de maneira rápida e objetiva, para que serve um museu, a saber: adquirir, guardar, preservar, expor, estudar e gerar conhecimento a partir das peças materiais que compõem seu acervo. Um museu, todavia, não é como, por exemplo, uma camiseta, cuja utilidade prática não requer quase nenhuma discussão. Isto é, em função exatamente das complexidades que perpassam o conceito de museu, ficar restrito ao utilitarismo é uma perspectiva muito pobre. Aí começam as dificuldades...
Os museus, mesmo aqueles cujo acervo é composto total ou predominantemente por objetos mais recentes, lidam com a questão do tempo, daí o historiador Pierre Nora tê-los considerado como lugares de memória. Seja esta memória de indivíduos ou coletiva, de um povo ou sociedade, sempre irá carregar o elemento subjetivo como sua característica definidora. A memória, evidentemente, não é uma estrutura unívoca e pré-determinada, pelo contrário, obedece a seleções e recortes diretamente dependentes da subjetividade. A partir disso é possível perceber que um museu apenas tem sentido à medida em que é capaz de construir relações junto ao seu público que, dependendo, de cada museu, pode ser mais ou menos variado e dotado de inúmeras intenções.
Por meio da leitura de autores tais quais Stuart Davies (2) e Carlos Ojeda Sanchés (3), verifica-se que é fundamental um museu estar ciente das necessidades e expectativas de seu público, bem como apto a garantir a satisfação do mesmo. Isso se torna mais importante ainda no mundo contemporâneo, que fez com que os museus se tornassem prestadores de serviços culturais, inclusive com margem até para o simples desfrute. O binômio museu-público (sendo este segundo termo entendido como substantivo, ou seja, público de pessoas que visita e usa o espaço museal) nos permite compreender que através dele próprio se engendram relações de valor envolvendo a instituição e os visitantes/usuários. A experiência de visitação é que, justamente, a meu ver, engloba de modo fecundo a pergunta que determina esta reflexão. Cabe lembrar neste ponto, que um museu precisa conhecer bem o perfil de seu público, bem como reconhecer sua missão institucional, as metas e as estratégias que necessita seguir a fim de estabelecer junto a tal público relações e experiências positivas que, por sua vez, indicam a necessidade de criar um diálogo permanente entre museu e público, especialmente em um contexto histórico caracterizado por transformações aceleradas. É daí, inclusive, que se revela a extrema importância do Plano Diretor, um documento norteador das práticas e do modo de atuação do museu para com seu público.
Admitindo-se, portanto, que o sentido de um museu se dá na relação com o público, envolvendo elementos subjetivos, mnemônicos e experienciais, podemos recorrer a alguns autores para ilustrar a presente reflexão. Considero bastante fecundas as conceituações de Judith Spielbauer, quando a autora afirma que o Homem compreende a si mesmo através dos museus em um contexto mais amplo, em interdependência com os mundos natural, social e estético, de Deloche, segundo o qual os museus estão diretamente ligados com a experiência sensível de acúmulo e transmissão da cultura e ainda de Schärer, para quem o museu é um lugar em que as coisas e os valores que se ligam a elas são salvaguardados, estudados e comunicados enquanto signos para interpretar fatos ausentes (4). A reboque dessas ideias, me veio à mente um outro conceito, o Pathosformeln (“fórmula das emoções”), estabelecido pelo historiador alemão da arte Aby Warburg (5). De acordo com esse estudioso, e procurando traçar uma relação com aquele sentido de valor que deve ser criado entre o museu como instituição e seu público, penso ser muito profícua a noção de que um objeto museal está inserido no tempo-espaço em que foi produzido, cercado de determinadas intenções e tributário do contexto e das ideias de quem o realizou, ao passo que o observador visitante do museu o enxerga a partir de outra dimensão temporal e outros esquemas de pensamento. Com isso, cria-se então uma tensão entre temporalidades e contextos particularmente diferentes, cabendo ao observador contemporâneo o esforço de, com o auxílio das informações e serviços prestados pelo próprio museu, procurar transitar por estes tempos, ir e voltar, buscando tecer significações e ressignificações sobre a cultura, a história e o espaço-tempo que compõem o objeto. Ressalta-se que essa perspectiva, embora encontre seu ponto de partida na subjetividade, é capaz de se desdobrar, com base na atividade de pesquisa que um museu potencializa, na geração de conhecimentos nos quais certo grau de objetividade, maior ou menor dependendo do escopo da própria pesquisa, pode ser alcançado.
Em vista desta argumentação, um museu, para mim, funciona como uma janela entre os tempos que possibilita alcançar perspectivas entre as temporalidades e espacialidades, bem como um locus privilegiado para apreender o sentido das elaborações culturais ao longo da história (e também das relações cultura-natureza, Homem-meio natural).

NOTAS

1. Apresentei o texto acima no programa de especialização em Museografia e Patrimônio Cultural do Claretiano-Centro Univesitário para a disciplina "Introdução ao Trabalho em Museus", sob a tutoria do Prof. Rodrigo Touso Dias Lopes no último mês de março. 
2. DAVIES, Stuart. Plano Diretor. Série Museologia: Roteiros Práticos. São Paulo: Edusp/Fundação Vitae, 2001. v. 1.
3. SANCHÉS, Carlos Ojeda. La visita al museo como experiencia. Metodología para la medición del grade de satisfación del visitante. Revista del Instituto Iberoamericano de Museología. Caldas de Reis, Espanha. Novembro, 2012.
4. As três apreciações constam do verbete “Museu” in DESVALLÉES; Andre; MAIRESSE, François. Conceitos-chave de museologia. Tradução e comentários de Bruno Brulon e Marília Xavier Cury. São Paulo: Comitê Brasileiro do ICOM / Pinacoteca do Estado de SP / Secretaria de Estado da Cultura, 2013, pp. 64 a 67.
5. Tomo o conceito assim como trabalhado na última obra do historiador Carlo Ginzburg, Medo, reverência, terror: Quatro ensaios de iconografia política. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A importância de conhecer Marx... para se libertar dele


Em recentíssimo artigo publicado na Folha de São Paulo, Reinaldo Azevedo, evidentemente em tom de ironia, afirmou que petistas devem ler Marx. Em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte o filósofo de Trier, lá pelas tantas, escreve que o monarca em questão "havia se tornado vítima de sua própria concepção de mundo". A "história se repetia como farsa", até que a revolução proletária, de acordo com o entendimento do autor, estivesse em ponto de bala para colocar as coisas no rumo certo.
Diante de mais uma gritante incapacidade do PT de perceber o que se passa debaixo de suas fuças, Azevedo recomenda aos partidários da sigla a leitura marxiana a fim de que abram os olhos, mas mesmo que o façam, tal não irá ocorrer - nisso reside a ironia -, pois no esquematismo dual e maniqueísta de Marx, como também é válido para os petistas, não existe o "homem médio", que não é nem aquele opressor que reage, tampouco o proletário que revoluciona. É, ao contrário, o verdadeiro sujeito da história, aquele que constrói a civilização e a repõe quando o caos se instala. Esse cidadão comum, cuja ausência na obra de Marx já era denunciada por Bakunin, vicejou livremente nos países que adotaram o capitalismo e o caminho político parlamentar, desmentindo categoricamente as profecias do teórico comunista.
Se, por um lado, o viés irônico do artigo de Azevedo está muito bem colocado, por outro, não há ironia alguma em aconselhar não só petistas, mas esquerdistas em geral, a lerem aquele que consideram como seu mestre intelectual. Sempre defendo a ideia de que algo em torno de sete a cada dez esquerdistas nunca leu nada que vá muito além do Manifesto Comunista e do 18 de Brumário..., obras curtas, dotadas de linguagem direta e fácil compreensão, o que pode ser comprovado quando se debate com os mesmos. A ignorância dos próprios esquerdistas em relação a Marx explica, em certa medida, porque ainda se atrelam ao marxismo e se posicionam como sendo de esquerda. É impossível concordar com Marx se a pessoa, de fato, conhece Marx. Quem o descarta depois de conhecer seu pensamento presta um bem inestimável a si mesmo e à humanidade, embora não se trate de tarefa nada fácil para quem continua acreditando que o esquerdismo tenha algo de positivo.
A título de ilustração e de amostragem, certa ocasião, durante um debate a respeito da Revolução Russa de 1917 com uma professora marxista-leninista, perguntei a ela se a promessa do comunismo como capaz de instaurar o melhor dos mundos não se apresentava falaciosamente e contraditoriamente à ditadura do proletariado, etapa anterior à extinção do Estado (e da sociedade), porquanto um regime ditatorial, com centralização de poder e consequente necessidade de planejamento, se manifesta em total contraste com o télos comunista. Ela me respondeu, com a pretensão de ser esclarecedora, dizendo que a ditadura se faria por toda uma classe, o que me fez notar seu desconhecimento não somente em relação a Marx, mas também sobre Lenin. O primeiro, restrito aos limites de um materialismo tosco, não deixou nenhuma teoria convincente das classes, já o segundo, o que é pior ainda, além de defender a revolução sem a necessidade do proletariado, a empreendeu na prática. Lenin levou a Rússia à guerra civil, massacrou os sovietes, estatizou a economia e nem por um único momento mostrou qualquer reticência ao comandar o genocídio de todos aqueles que julgava como elementos contrarrevolucionários, inclusive artistas e intelectuais. Nem mesmo se depois disso o paraíso terreno estivesse completo (verificou-se o total oposto disso) o derramamento de sangue seria justificável. Esquerdistas, contudo, parecem enxergar no ser humano apenas um meio para a revolução violenta... 
A morte de Lenin em 1924 fez de Stalin o líder da já existente URSS, escancarando de vez o totalitarismo comunista. A professora, do mesmo jeito que todos os marxistas atuais, afirmou que o ditador georgiano desviou a revolução marxista-leninista de seu curso. Esse devaneio faz pressupor que mesmo diante das tantas tragédias que sempre estiveram lado a lado com a engenharia social comunista, um dia, em um futuro qualquer, a coisa ainda pode dar certo... Se nos saíssemos lembrando que a ideia de conduzir a sociedade por um curso pré-determinado por si só é totalitária, já não seria necessário ir adiante. Acontece que, além de tudo, o totalitarismo de Stalin não representou um rompimento com Marx coisíssima nenhuma! Se não fosse por aquilo mesmo de genocida e totalitário que Lenin promoveu desde o advento revolucionário, também nesse aspecto é possível levantar os equívocos da teoria de Marx para proceder com correção à análise histórica. Assumindo a primazia da base material-econômica sobre a superestrutura, exatamente como Marx pensava, tem-se que o poder emanado da figura de Stalin é um fator político e, por conseguinte, pertencente à superestrutura, logo, subordinada à base material. Ora, considerando que Lenin havia anteriormente consolidado a organização estrutural da URSS, o stalinismo só pode ter sido a consequência direta do que foi plantado a partir de outubro de 1917, caso contrário, uma vez completado o arranjo comunista, cuja estrutura de comando se dá a partir do econômico-material, assim como a perfeita harmonia prometida por tal arranjo, como pensar que o elemento político sobrepujou o econômico? É impossível validar a teoria de Marx ao mesmo tempo em que se tenta negar a filiação marxista do stalinismo. Ou Marx estava errado e não é possível admitir o primado do materialismo histórico - o que derruba por terra seu pensamento - ou o stalinismo manifestou o desfecho de uma teoria que conduz inexoravelmente ao totalitarismo, das duas uma!
Marx, além de não ter estabelecido uma teoria das classes, igualmente se mostrou incapaz de conceber uma teoria do Estado. Em Lenin, o completo desprezo pela via democrática, tributário das teses marxianas, ganhou contornos reais. Stalin foi o resultado natural da aplicação prática do marxismo. Compreender os enganos de Marx é necessário para se livrar de suas ideias sanguinárias, um exercício de sanidade mental, responsabilidade política e coragem intelectual. A despeito da dificuldade que uma mudança de postura política e intelectual envolve, não é inimaginável supor que um esquerdista possa realizar esse tour de force, (muitos personagens já o fizeram). Há que se despir do orgulho e, se é verdade que ao menos uma centelha da dimensão espiritual permaneça como característica da condição humana, ainda que em uma mente esquerdista, qualquer um está apto a se libertar de tão execrável filosofia.

terça-feira, 17 de março de 2015

Política e sociedade brasileiras hoje: breve reflexão


O tempo tem sido escasso e, como se pode observar, as postagens se tornaram bem menos frequentes. Assim permanecerá por período indeterminado, todavia, passo por aqui hoje apenas para deixar breves apontamentos pessoais a respeito da situação político-social do país, como segue abaixo (perdoem-me aqueles que já leram essas palavras no Facebook, de qualquer maneira, o texto foi levemente aprimorado):
Eis que, decorrido mais de século e meio desde que Marx começou a erigir seu sistema, no Brasil de hoje, a burguesia dos textos marxianos se transformou na classe média, pelo menos em se tratando da corja PeTralha (caberia perguntar aos defensores do governo, ou mesmo aos que parecem não se importar com os descalabros da administração federal, que elevou a corrupção a modus operandi, que carrega como marca a incompetência gerencial e que se afina a par e passo com ideias totalitárias: o que têm a dizer sobre os ricos?; por que os mesmos deixaram de ser o alvo do esquerdismo?; acaso os que ocupam os primeiros degraus da pirâmide social deixaram de existir?; ou será que uma ordenação política que não pode sobreviver sem a distribuição de favores, tal como Max Weber explanou, os cooptou em grande parte?!).
Se no plano teórico, a oposição burguesia x proletariado, ainda que se mostrasse uma grandiosa inconsistência a julgar exatamente pelo ulterior desenrolar histórico, permitia a Marx elementos para preencher suas aspirações proféticas, a realidade de tantos países nos quais o capitalismo floresceu virtuosamente revela que o surgimento das camadas médias desmente de modo categórico uma das teses centrais do autor de O capital. O capitalismo baseado nas liberdades individuais, na valorização da criatividade, na geração de oportunidades, no respeito ao sistema jurídico e na disseminação da alta cultura foi pródigo em promover prosperidade. A partir dele é que as nações desenvolvidas seguiram o caminho que lhes conduziu ao desenvolvimento. Não ocorreu, como acreditava Marx, um alargamento do fosso entre burgueses e proletários, ao contrário, houve uma redução de tal diferença com o crescimento da classe média.
No seio das complexidades que estruturam a sociedade brasileira, nem mesmo o partido que ocupa o poder se entende sobre o conceito de classe média (Marx nunca foi capaz de estabelecer uma teoria das classes, mas tão somente se aproveitou dos estudos de François Guizot, sem extrair de tal desdobramentos válidos): por um lado, o PT se jacta de ter "tirado milhões da pobreza", - para aonde teriam ido?! - por outro, através de seus próceres e idiotas úteis, afirma odiar o próprio fenômeno que alega ter ampliado tanto - por essa lógica, que tamanha ingratidão por parte da criatura para com seu Criador! Escusa-se afirmar que o PT não criou classe média alguma, tendo esta se consolidado a partir da estabilização econômica dos anos 1990, a qual, no momento, o partido detentor do poder põe em gravíssimo risco devido aos erros que comete na condução da economia.
O fato, entretanto, é um, apenas um: a reboque de seu marxismo para lá de caduco (Marx jamais atentou para o dinamismo da política e para sua independência em relação ao que chamava de base estrutural), a PeTralhada é incapaz de enxergar a política como processo, como dissenso e como gestão de demandas, logo, só o que resta, é destilar o ódio contra o setor da sociedade que, por estar livre do cabresto assistencialista que assola os mais pobres, assim como fica de fora (também por questões morais) do butim que assalta a máquina pública e promove o repasto dos amigos do poder, é o único com possibilidade de colocar ponto final à doença cancerosa que faz o país sofrer há mais de doze anos. Não é em função, evidentemente, de "consciência de classe", mas simplesmente por um arranjo social e político nefasto criado, aí sim, pelo PT. Não se trata, tampouco, do "nós contra eles", também um expediente político tipicamente totalitário. Não, um país que deseja o verdadeiro desenvolvimento requer que seu governo administre para todos sem lugar para populismo assistencialista e para cooptação.
Não nos calaremos!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma anedota sobre o pesadelo igualitarista



Imagine-se uma situação inicial de completo igualitarismo em determinada sociedade: o governo distribuiu a renda total de modo equitativo entre cada habitante (excluem-se, para tornar a coisa mais simples, as crianças, os inativos e os inválidos). No momento exato da distribuição, portanto, todos possuem o mesmo quinhão em termos financeiros. Pergunta-se: quanto tempo tal estado de igualitarismo total se mantém?
Só é possível vislumbrar a continuidade da situação colocada acima se a economia fosse imediata e permanentemente paralisada no âmbito da sociedade e da iniciativa privada e passasse a haver um controle governamental extremamente rígido. Não é isso, justamente, que ocorre nas ditaduras socialistas? Todavia, suponha-se que o governo concedesse um grau de liberdade para que os indivíduos pudessem fazer uso de seu dinheiro de acordo com as próprias escolhas e prioridades.
Caso fosse permitido o uso e a aplicação livres do dinheiro, desde o primeiro instante em que a liberdade econômica estivesse vigorando, o igualitarismo não mais existiria. Uns iriam investir certa quantia, seja em poupança, seja em algum outro tipo de capital, gastando apenas o estritamente necessário. Outros, para os quais a previdência não trouxesse interesse, torrariam montantes elevados em jogos, bebida, prostituição ou mesmo em qualquer bem de consumo. Com o tempo, os mais empreendedores, estudiosos, criativos e esforçados teriam acumulado um capital monetário muito maior do aqueles que preferiram fazer uso imprevidente do dinheiro.
Fica bastante claro que, em uma sociedade livre, o igualitarismo não pode existir, exatamente porque as capacidades, os interesses e os desejos diferem de pessoa para pessoa. É óbvio que a criação de oportunidades e a implantação de alguns mecanismos de ajuste podem e devem ser colocados em prática, o que de maneira nenhuma elimina as diferenças entre os indivíduos, tampouco endossa o intervencionismo estatal. Neste ponto, surge uma segunda pergunta: em que condições pode haver igualitarismo?
A resposta exige uma tipificação conceitual: uma coisa é a igualdade que, para se sustentar como algo virtuoso, necessita da companhia da liberdade. Tocqueville mostrou esse arranjo igualdade-liberdade como ninguém, de modo que a igualdade louvável e possível é a igualdade jurídico-política, o que se costuma chamar de isonomia perante as leis. No quesito econômico, a única igualdade que pode haver no seio de um aparato governamental que propicie liberdade é a igualdade de oportunidades, a partir da qual cada um dirige a própria vida como quiser. Uma vez eliminada a liberdade, descarta-se também a possibilidade de igualdade jurídico-política, pois na sanha de controlar as pessoas o governo irá concentrar fortemente o poder político, ou seja, será estabelecida uma ditadura. A igualdade de oportunidades é então distorcida e o governo ditatorial procura impor o artificialismo da igualdade de resultados, o mesmo que igualitarismo. Sabe-se bem os resultados socioeconômicos catastróficos dessa prática. A miséria econômica e a extrema opressão política observadas em nações como a China de Mao Tse-tung, o Cambodja de Pol Pot, a Romênia de Ceaucescu, a Cuba dos irmãos Castro, a Venezuela de Chávez-Maduro ou a Coreia do Norte dos Kim Jong não são meros acasos, muito pelo contrário.
Aqueles que defendem o igualitarismo e nele acreditam são idiotas perfeitos cujo entendimento histórico não pode ser alcançado em função da fé cega em uma ideologia falida, genocida e geradora de miséria. O igualitarismo, nas palavras de Gonzalo Fernández de la Mora, não chega nem mesmo a ser uma utopia, mas sim um pesadelo impossível.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O partido que tenta se "limpar" com a própria sujeira


O ano de 2014 vai se encerrando, marcado, na política brasileira, por mais uma enxurrada de escândalos de corrupção envolvendo o (des)governo do PT. O Petrolão, evidentemente, é uma continuação do Mensalão, o que revela claramente o desmesurado objetivo petista de assaltar a máquina pública em todas a suas esferas para se perpetuar no poder. O ponto é esse, deve-se insistir, ou seja, se a corrupção não foi inventada pelo PT - e não foi mesmo, como bem se conhecem as histórias do Baixo Império Romano e de tantas outras cortes - adotá-la como método e como filosofia é sim uma estratégia sui generis do esquerdismo petista; assim, corromper vai muito além do desvio pontual de conduta a fim de obtenção de vantagens econômicas, pois é algo que se torna regra como modo de se alcançar, sobretudo, vantagens políticas. É exatamente isso que ainda requer entendimento aprofundado por parte da sociedade brasileira para que o PT, e não só ele, mas toda a organização esquerdista, sejam devidamente condenados e defenestrados.
O ministro petista Dias Toffoli declarou que os empresários privados são os principais beneficiários do Petrolão. Com isso, quis dar a entender que o mal não está instalado no Estado brasileiro. Ora, é uma análise absurda, uma vez que tenta esconder o simples fato de que os agentes corruptores estão instalados na esfera pública e que os corrompidos se favorecem de negócios escusos junto ao governo. O típico arranjo estatizante no qual o setor privado deixa de concorrer pelas vias de mercado, preferindo aliar-se aos "donos do poder", na expressão de Raymundo Faoro, é um péssimo hábito do socialismo. Isso porque as caixas de Pandora do BNDES e da Eletrobrás não foram abertas, pelo menos por enquanto...
A presidente Dilma Rousseff, em mais um de seus tantos discursos estapafúrdios, disse que as denúncias de corrupção não podem servir de pretexto para prejudicar as estatais. Tal fala, se já não fosse pelo absurdo do próprio conteúdo, é um acinte contra a sociedade brasileira, uma ridícula inversão da lógica, já que é justamente a corrupção que destrói as instituições nacionais.
A horda esquerdista, nela inclusos os militantes, os jornalistas vendidos e os intelectualóides procuram passar a ideia de que o PT combate a corrupção como nenhum outro partido ou governo anterior, daí exatamente a miríade de escândalos. Uma vez mais, prepondera a lógica de botequim: em primeiro lugar, desde o início das denúncias em 2005, o PT tenta desfazer o curso da realidade: ora a, corrupção é mera invenção da "mídia golpista" e da "zelite" (1), ora a cúpula do governo não sabia de nada (2), ora são apenas "coisas normais" que antes já se fazia (3). Os próceres petistas não podem sustentar as teses 1 e 2 ao mesmo tempo, pois não saber de nada não elimina a existência da corrupção; isoladamente, a tese 1 desmoronou tão logo as provas que culminaram no processo do Mensalão começaram a aparecer; a tese 2, ainda que contivesse um sopro de cabimento, ainda assim só serviria para indicar desatenção, irresponsabilidade e omissão por parte dos nomes mais importantes do governo; a tese 3 vai de encontro com o que expus no primeiro parágrafo e, ao contrário do efeito positivo que os adesistas do governo buscam conferir a ela, somente desnuda que o discurso petista enquanto oposição jamais passou de fachada. Na melhor das hipóteses, o PT seria igualzinho aos outros e, para quem tanto se gabava de ser o paladino único da ética e da transparência, agora está se contentando com muito pouco.
O PT não só não combate a corrupção, como tenta a todo momento varrê-la para baixo do tapete ou relativizá-la: além das três "justificativas" acima, continua tratando como heróis àqueles que foram condenados pela justiça, continua tentando calar a imprensa livre, elemento fundamental na investigação de tudo aquilo que se descobriu até hoje, tentou barrar o poder de investigação do Ministério Público, como também a CPI da Petrobrás. E nem é necessário lembrar que todas as denúncias até hoje partiram de dissidentes do petismo ou são fruto da delação premiada.
Há cerca de um mês foi publicado um artigo no jornal Folha de São Paulo que provocou euforia nos petistas e na esquerda em geral. Por motivos particulares, não vou entrar em detalhes sobre o mesmo. Por enquanto... De qualquer maneira, além de já ter sido categoricamente refutado devido à grande quantidade de inconsistências e contradições, seu conteúdo pode dar margem para incriminar o próprio autor. O PT faz sujeira e se "limpa" com ela...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O mágico poder da escuridão



"A cidade moderna praticamente desconhece a escuridão e o silêncio profundos, assim como o efeito de um lume solitário ou de uma voz distante". - Johan Huizinga, O outono da Idade Média

A última vez que pude observar o céu em sua plenitude, forrado de estrelas, foi em 2008, em Cambará do Sul (RS). A visão só ocorreu em virtude de eu estar em uma fazenda em local afastado e do fato da própria cidade ser pequena e desprovida de quantidade significativa de iluminação artificial, ou seja, o elemento propiciador foi a escuridão. Não só já faz um certo tempo, como constituiu uma das raras experiências desse tipo em se tratando de um sujeito moderno, o que comprova a apreciação de Huizinga.
Da Pré-História até o século XVIII, a observação dos astros foi responsável, ao mesmo tempo, por gerar distração e promover conhecimento ao ser humano. Antes mesmo do desenvolvimento científico se tornar mais sistemático no fim do período medieval e no Renascimento, muitos estudiosos antigos, tais quais Aristarco de Samos, Eratóstenes, Ptolomeu ou Abd al-Rahman al-Sufi já traziam contribuições notáveis no campo astronômico. As luzes das cidades e a poluição da era industrial, realidade que passou a dar a tônica da vida moderna há cerca de pouco mais de dois séculos, impediu que o céu continuasse sendo observado da mesma forma que outrora. Evidentemente, não estou tentando passar uma ideia anacrônica e contrária ao devir da história, pois seria utópico e inócuo imaginar uma volta ao passado pré-industrial. Tampouco se pode desprezar o avanço da Astronomia no mundo contemporâneo, tornado possível graças à tecnologia que permitiu descobertas e entendimentos precisos com os quais somente pouquíssimos homens de gênio à la Leonardo da Vinci poderiam vislumbrar em eras passadas. Trata-se apenas de pensar no completo afastamento, por parte das pessoas em geral, de determinadas situações que, uma vez experienciadas, poderiam tornar nossa vida mais rica. Isso é válido sobretudo porque as próprias atitudes do homem atual contribuem para que sua experiência de vida permaneça encerrada em certos limites, de algum modo, empobrecedores.
De cerca de vinte anos para cá, mais ou menos, com a progressiva verticalização de cidades como São Paulo, Campinas ou Rio de Janeiro, entre outras, a época do Natal tem feito com que a quantidade de luzes se torne ainda maior do que já é normalmente. Quem, por exemplo, de uma certa altura na janela de um prédio se ponha a olhar para o horizonte, terá diante das vistas um sem número de pisca-piscas, de várias cores, tamanhos e formatos. Andando pelas ruas, seja no comércio, ou nas próprias residências, encontra-se o mesmo. Há quem ache bonito e ajude a reproduzir esse efeito natalino contemporâneo. Eu mesmo, quando a prática começou a se tornar regra, confesso que me senti atraído pelos luminosos natalinos, mas agora, o extremo exagero tem me transmitido cada vez mais uma sensação de pastiche cafona. Além disso, o que é mais importante, aumenta as limitações quanto à atividade contemplativa em relação à escuridão e ao silêncio.
Em meio à infinitude de luzes regulares da cidade, realidade que, como já expus acima, se manifesta de modo inerente ao mundo de hoje, somam-se os efeitos sazonais de Natal. A tentativa de empreender um contraponto a esse quadro praticamente só pode se situar no âmbito do que nos restou, isto é, no plano de um exercício imaginativo - e um tanto quanto místico. Se desconsiderarmos algumas dúvidas históricas que pairam a respeito do nascimento de Jesus na manjedoura e da visita dos reis magos, seremos capazes de pensar que a fogueira acesa para aquecer o filho de José e Maria era o único ponto de luz em meio à escuridão, bem como o caminho de Baltazar, Gaspar e Melquior fora iluminado tão somente pelo luar e pelas estrelas.
O silêncio da noite é - ou pelos menos deveria ser - também um silêncio visual. As luzes do pensamento e da reflexão se intensificam à medida em que o breu exterior é mais profundo. Não há dúvida de que nós, modernos, somos extremamente carentes dessa experiência de escuridão e silêncio. Ainda que fosse apenas por algumas horas e até para que tivéssemos a oportunidade de pensar e refletir livres de todos os tipos de ruído, não seria interessante passar a noite de Natal, momento tão propício à quietude e ao desvendar da interioridade, sem o turbilhão ensurdecedor das luzes?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Palmeiras e as estruturas antimercadológicas do futebol brasileiro ou, qual futuro será escolhido?


Não sei se o Palmeiras será rebaixado na última rodada do Brasileiro 2014. A chance existe e não é pequena, muito maior do que qualquer cálculo probabilístico, em que o imponderável, típico do futebol, não atua. Em todo caso, escrevo antes do desfecho, seja da queda, seja da permanência na elite do futebol nacional.
Se o Palmeiras se mantiver na primeira divisão, a campanha horrorosa não será apagada, muito pelo contrário, pois o time terá alcançado a salvação no 16o. lugar, o primeiro fora do chamado Z4. Há quem tenha dito estes dias que se o Palmeiras escapar no próximo domingo, ainda assim deveria solicitar uma vaga na segunda divisão, dada a extrema ruindade de seu elenco. Esquecendo por um instante a paixão de torcedor, devo confessar que concordo plenamente com a ideia: uma instituição dona de tamanha tradição e história gloriosa não pode ter uma equipe tão abaixo da média, recheada por jogadores tão pernas de pau, comandada por um técnico fraco e paneleiro. Esse Palmeiras atual não merece a série A, a despeito dessa estar bem longe da excelência técnica.
Independente do resultado vindouro, no entanto, o que quero discutir vai bem além da mera consequência das péssimas administrações que têm marcado a história mais recente do alviverde. Todos sabem como a politicagem e os interesses escusos que imperam nas alamedas do Palestra Itália contribuem decisivamente para o atual estado de degeneração do futebol esmeraldino. Aos que agora têm investido sua fúria contra a modernidade futebolística de maneira indistinta, com relação a todos os aspectos dessa modernidade, pode-se inferir que aprovam as gestões dos Mustaphás e dos Belluzzos, exemplos claros de arcaísmo. Para quem nunca se sentou no cimento de uma arquibancada ou jamais precisou fugir de torcedores adversários na saída de um estádio, é fácil romantizar. Mas deixemos isso para lá...
O que considero bastante importante em termos de reflexão sobre o momento presente, não só do Palmeiras, mas do futebol brasileiro, está relacionado com o mercado, esse fator moderno que os populistas mencionados no artigo anterior tanto ojerizam. Foi surpreendentemente positivo observar Fábio Sormani dizer que o mercado não comporta três ou quatro times grandes com sede em uma mesma cidade, como é o caso da capital paulista. Os salários pagos a técnicos decadentes incapazes de entender as evoluções táticas dos últimos 15 ou 20 anos, bem como a jogadores, mesmo os medíocres ou abaixo disso, são pornográficos. Não há dinheiro suficiente para sustentar essa esbórnia. Por que chegou-se a tal ponto? Talvez porque o futebol tenha sido levado a sério mais do que deveria, atribuiu-se ao esporte mais significância do que ele possui. Muitas vinhetas televisivas tratando um jogo como se fosse uma guerra, muitos "analistas" discutindo o sexo dos anjos como se estivessem debatendo a respeito de metafísica kantiana. De tanto ser levado a sério, o tiro saiu pela culatra e o futebol brasileiro virou uma completa palhaçada. A meu ver, Paulo Nobre agiu corretamente quando instituiu o contrato por produtividade: jogador é funcionário do clube (que precisa ser pensado como empresa) e tem que receber de acordo com o que produz.
Hoje, em função da tragédia econômica causada pelo governo petista, o Brasil é um país que não atrai investimentos, menos ainda no futebol, tomado pela deficiência técnica, pelas cifras irreais e pelos desmandos da TV Globo. Quantias proibitivas continuam circulando, mas geralmente não estão atreladas a fatores como desempenho dentro de campo, tampouco são pagas de modo minimamente equitativo entre os clubes. Os patrocinadores fugiram quase completamente, exceto por parte de um banco estatal que investe dinheiro do contribuinte em entidades particulares. Trata-se de um quadro em que, na verdade, o mercado fica suplantado pelo poder político, com todos os interesses e disputas de poder que o mesmo traz a reboque. Capitalismo de Estado, nome mais pomposo para "socialismo".
Dos três clubes grandes sediados na cidade de São Paulo, um deles é o beneficiário dos esquemas de poder, aliado da politicagem e instrumento do pão e circo sem o qual o PT não teria fincado raízes na governança federal. Outro, é dono de uma riqueza patrimonial construída há várias décadas, mas que já não vem obtendo resultados tão satisfatórios nos últimos anos, ao contrário, as dívidas estão crescendo e os patrocinadores não têm dado as caras. Além disso, é uma instituição cuja torcida não pode ser considerada das mais apaixonadas nem está distribuída em âmbito nacional. O terceiro, é o Palmeiras, com sua torcida fanática, enorme consumidora de produtos oficiais, espalhada em várias regiões do Brasil como poucos clubes do país possuem.
O Palmeiras é uma instituição com potencial praticamente único no cenário nacional para galgar espaços de mercado até agora inexplorados pelos clubes brasileiros, em parte, devido à incompetência administrativa, caso em que o alviverde é exemplo característico, mas também porque as próprias estruturas futebolísticas tupiniquins são orientadas por diretrizes avessas ao mercado, como praticamente tudo no Brasil. Paulo Nobre terá o segundo mandato inteiro como presidente da SEP pela frente; terá que repensar inúmeros aspectos de sua gestão para o futebol do clube, área em que cometeu erros homéricos (não seriam fruto exatamente do arcaísmo que ainda vigora?), todavia, continua com a faca e o queijo na mão para ser pioneiro no sentido de estabelecer padrões administrativos voltados ao empreendedorismo esportivo e à eficiência de mercado, fatores salutares que a modernidade exige. É necessário valorizar a marca (e que potencial ela tem!), não apenas economizar, mas sobretudo ousar visando gerar novas receitas, criar estratégias agressivas de marketing, saber atrair investidores, enfim, gerir o clube como uma empresa - levar boutiques móveis em jogos fora da cidade de São Paulo, promover sessões de autógrafo com ídolos do passado nessas mesmas ocasiões, tornar mais atrativo o programa de sócio-torcedor, precificar os ingressos de acordo com a demanda das partidas, elaborar mais parcerias como no caso da Diletto, são apenas algumas das possibilidades que o clube tem ao seu dispor. As estruturas antimercado serão um obstáculo difícil de remover, contudo, é preciso começar de algum ponto. Ponto crucial para que o futebol brasileiro escolha pela modernidade mercadológica ou por outros 7x1...