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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Iberê Camargo: a antítese da brasilidade


Já usei este espaço anteriormente para escrever sobre a imbecil obsessão de tantos brasileiros, levados de roldão por certas ideias supostamente intelectualizadas, de definir uma identidade nacional. Volto hoje ao assunto, abordando-o de uma forma diferente.
Em seus vários capítulos, a busca patológica e anti-histórica pela identidade nacional teve no Movimento de 1922 sua pedra fundamental, seu ídolo das origens no qual, sempre que manifestada, faz retornar elementos erigidos por aquele grupo de artistas. A partir de então, quase como em um passe de mágica, praticamente todos eles foram imbuídos de uma aura de santidade e adquiriram respeito que não pode ser contestado sob pena de imputação de crime de lesa-pátria ao contestador.
Na esteira do Movimento de 1922, muito bem aproveitado por Getúlio Vargas na conformação da tal identidade brasileira, os traços da chamada brasilidade estabeleceram bases que até hoje se observam largamente recorrentes. Metafórica e sinestesicamente, a brasilidade possui perfumes tropicais, é alegre, alvissareira, quente, musical e radiante; suas cores pulsam vibrantemente e enunciam categoricamente o espírito feliz do povo brasileiro. Mesmo em um Cândido Portinari, onde os temas políticos são bastante nítidos, sempre resta a força dos tipos nacionais como característica redentora. Desconfio que poucas coisas atingem maior grau de pieguice, sentimentalismo barato e efemérides tão enganosas quanto essa brasilidade que emana desde 1922. Nem é preciso ressaltar que à margem do pattern da identidade nacional forjada, sobrevive um certo número de pessoas nada preocupadas com questões identitárias, mas obrigadas a conviver em muitas situações com o falso patriotismo, consequência lamentável desse quadro patológico. Da imposição da brasilidade adveio o ridículo da obrigatoriedade de se valorizar tudo que é nacional. Ao invés do enaltecimento do universal, do sublime, do qualitativo, o nacional se impõe sem ser necessariamente merecedor, pelo contrário. A lógica se inverteu: não que os brasileiros devam produzir cultura de qualidade, mas se é brasileiro, basta para ter qualidade. Cultura, de acordo com essa concepção, passa a ser uma questão telúrica.


Ainda assim, diante de uma brasilidade tão tentacular, não é impossível encontrar manifestações de alta cultura fora de seu círculo. Não, evidentemente, que seja difícil encontrá-la justamente aí, pois é só onde ela tem existido, mas seu espaço fica limitado pela propagação de epígonos: a cultura de massas e a incultura, que lhe é atrelada. Desse modo, é preciso esforço, mas a qualidade hermética daquilo que é confidencial convida as criaturas pensantes ao desvendamento compensador. No campo da pintura, o gaúcho Iberê Camargo (1914-1994) é um representante ímpar de tudo que foge à brasilidade. Iberê, por assim dizer, é disparado o melhor pintor brasileiro de todos os tempos, propiciador de uma obra em que a qualidade é reconhecível por ela própria, sem ter em momento algum que recorrer aos clichês da brasilidade. De modo completamente oposto aos nomes mais cultuados da pintura brasileira, todos eles presos aos elementos característicos da "identidade nacional", a obra de Iberê jamais faz concessões ao observador, como tão bem colocado por Daniel Piza. A pintura do artista gaúcho é densa, sombria, soturna, insondável e misteriosa. Predominam as tonalidades escuras e os temas não são nada afeitos ao clima alegre e redentor. A atmosfera é de inteira sobriedade e introspecção, nada oferecendo ao observador sem que uma reflexão profunda, detida e dolorosa tenha que ser encarada. Entender Iberê Camargo é desafiá-lo em um diálogo socrático que o artista propõe; tudo está ali sem poder ser categorizado em termos apriorísticos, apenas podendo ser decifrado à custa de um exame devastador da consciência e da interioridade.


Uma vez que a pintura de Iberê se caracteriza por elementos diametralmente contrários à brasilidade, torna-se evidente que seu nome e sua obra sejam reconhecidos somente no seio de uma perspectiva de caráter muito mais seleto do que acontece com as manifestações que se coadunam docilmente com o lugar comum da identidade nacional. Em uma cultura de massas marcada pelo progressivo emburrecimento dos espíritos, isso se acentua fortemente. Por um lado, é extremamente difícil deixar de pensar que a confidencialidade de suas telas constitui uma garantia da alta cultura que as mesmas têm como legado artístico, o que de certa maneira é positivo, pois faz com que permaneçam protegidas da massificação. Por outro, todavia, revela que o Brasil é um país cuja mentalidade de seu povo permanece impermeável à cultura de qualidade, já que esta sempre depende de uma atividade intelectual verdadeira, honesta, diligente e paciente, algo raríssimo por aqui.
A valorização do nacional a partir de motivações puramente telúricas é digna de repúdio, uma prática cretina, afeita à necessidade de domesticação sem a qual nenhum autoritarismo deita raízes - não foi por acaso que a construção da brasilidade deu seu passo mais decisivo nas décadas de 1920 e 1930, nesta então já sob a ditadura de Vargas. Na medida em que a pintura de Iberê Camargo é um exemplo incomum de manifestação artística brasileira da mais alta qualidade, ela deve sempre merecer os mais honoráveis louvores.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A figura dominante e as ideias no claustro - um conto

"A ignorância produz atrevimento, a reflexão, vagar". Péricles

"Nada é mais presunçoso do que a ignorância ligada à convicção de que se possui ciência". - Erasmo de Rotterdam

Augusto chegou e tão logo sentou-se para aguardar o início do curso. Estava ali sem grandes expectativas, pois já sabia mais ou menos com o que se defrontaria, mas no fundo, nutria um pouco de curiosidade com relação aos detalhes discursivos, conceitos e ideias que seriam expostos por aquela cuja posição ocupada era francamente proeminente.
Naquele lugar, caso o sujeito estivesse imbuído do desejo de obter conhecimento com vistas ao enriquecimento cultural e, mais sublimemente, como condição fundamental na construção da personalidade e fortalecimento do domínio moral, o esforço necessário se mostrava tamanho, que facilmente fazia soçobrar os menos persistentes. Somente nas brechas, no silêncio confidencial e nos momentos crepusculares é que se conseguia escapar dos lugares comuns impostos pela brutalidade do patrulhamento. O maior dos louvores é merecido a todas (e poucas) mentes isentas e verdadeiramente compromissadas com o saber que ousaram estabelecer pontos fora da curva. Outros, a maioria, preferiam aderir por comodidade, fraqueza de espírito, ignorância, ou uma combinação de tais fatores, ao catecismo que sempre iam buscar no século XIX, reeditando-o sem critério e escrúpulos, ao bel-prazer da vã ideologia.
A exposição de Veridiana seguiu dentro do que Augusto esperava. Era o mesmo discurso que ele já havia escutado um bom número de vezes desde que frequentava aquele lugar. Não mudava a característica imprecisa, sendo que o receituário era transmitido em bloco, sem quaisquer distinções em termos de fase ou de modo a enfrentar os problemas filosóficos, históricos, sociológicos ou econômicos da coisa toda. Uma questão de incapacidade? Sem dúvida, haja vista que a conformação do tipo de pensamento que ali se disseminava não ia além de uma deformidade daquilo que já havia surgido em suas próprias origens, como uma enorme deformação. Entretanto, era algo além de incapacidade, uma deformação não apenas epistemológica, mas sobretudo moral. Qual nível de degradação se atinge no apego irracional a dogmas tão equivocados? Questão difícil! A um pano de fundo que, ao mesmo tempo que se mostrava encerrado em seu fatalismo, nunca deixava de fazer apelos à necessidade da práxis, maneira ardil na tentativa de descartar todos aqueles que não compunham o perfil do "novo homem", somava-se uma série de erros grotescos, de natureza conceitual, ou até mesmo puramente cronológica, factual, quantitativa. Augusto teve uma vez mais a nítida impressão de que o programa era erigido com clara intenção prescritiva, o que não era, de modo algum, uma novidade. Ele se remoía em suas entranhas mentais buscando uma explicação capaz de indicar o motivo do fascínio exercido pela figura dominante, contudo, como não poderia deixar de ser, retornava aos mestres: Ortega y Gasset, Albert Camus, Hannah Arendt ou Isaiah Berlin já haviam oferecido contribuições profundas acerca do tema. Ao contrário do que versava o próprio catecismo transmitido por Veridiana e seus pares, cada vez mais percebia a força das ideias! Para o bem, mas infelizmente, mais para o mal, pois o pensamento dominante é pródigo em verbalizar e adotar a sumária estratégia do descarte de tudo o que não tem explicação no seio de sua rigidez paradigmática. Vem daí sua força sedutora, porque ele simplifica a complexidade do real, cria campos opostos, angeliza e demoniza, recorrendo a um suposto curso histórico como forma de ameaçar quem resiste à sedução. O grande Eugen Von Böhm-Bawerk não pensou em outra coisa quando declarou que "as massas não buscam a reflexão crítica: simplesmente, seguem suas próprias emoções; acreditam na teoria (...) porque a teoria lhes agrada".
Houve uma ocasião em que Augusto se utilizou de Tocqueville e de François Furet para argumentar sobre a Revolução Francesa. Pensadores contrários à corrente dominante. Veridiana iria replicar? Não houve réplica alguma. Polidez por parte dela, ou falta de interesse em promover a discussão? Augusto tentou pensar diferentemente, mas o desinteresse era uma evidência. Veridiana dominava burocracias, gerenciava e atuava no que, cinicamente, designava-se por "produção do conhecimento". A tal ponto sua figura estava cristalizada como dominante, que nada precisava desenvolver como contribuição. Raízes se fincavam desde muito tempo e o domínio era não só pragmático como mental, o pior e mais tenebroso de todos os domínios. Uma grande horda de coadjutores cativos estava sempre pronta a defender a figura dominante de Veridiana. Eles se encarregavam de manter vivas as ideias da doutrinadora, mais ainda do que as ideias dela, as ideias daquele catecismo mundano continuamente reproduzido desde que surgiu e se apossou das mentes da multidão. Todos têm alguma noção do legado concreto da doutrina, mas o legado epistemológico é o mais sombrio, aquele que justifica as consequências passadas e presentes em nome de um futuro falso e inatingível. Figura de força, ideias dominantes. Ideias no claustro. Até quando?

terça-feira, 16 de julho de 2013

Cidades históricas de Minas Gerais: breve memorando turístico

Igreja de São Francisco de Assis, em São João Del Rei

Juntamente com minha esposa, estive passando alguns dias nas cidades históricas de Minas Gerais. Fomos para São João Del Rei, cidade na qual ficamos hospedados, Tiradentes, Congonhas e Ouro Preto, além de termos passado por Bichinho, Coronel Xavier Chaves, Prados, Resende Costa e Santa Cruz de Minas, povoados menores da região. Por questões logísticas, não foi possível visitar Mariana.
É sempre bom conhecer lugares diferentes e, de uma maneira geral, pudemos descansar e ter contato com a arte, a cultura, a história e a natureza que permeiam o chamado Circuito do Ouro. Por outro lado, é evidente que em se tratando de Brasil, acaba-se também enfrentando certos problemas que prejudicam o turismo no país, prova de que falta uma ampla quantidade de investimentos essenciais para tornar a atividade turística sólida e geradora de divisas nestas terras. Nenhum evento sazonal ou esporádico pode suprir tal carência, pois é algo que está relacionado com planejamento, manutenção e fiscalização, elementos que só são possíveis e eficazes caso se façam permanentemente e em diálogo com a sociedade e a iniciativa privada. O enorme potencial turístico brasileiro é inversamente proporcional às precárias políticas que o gerenciam. Mais um ponto no qual há muito tempo os governos no Brasil deixam de atuar devidamente.
Em termos específicos, a cidade de São João Del Rei, dotada de grande riqueza cultural, faz saltar aos olhos a deficiência do turismo brasileiro. A localidade conta com cinco igrejas principais que se dispõem no espaço de modo a formar o desenho de uma cruz: São Francisco de Assis, a que apresenta maior tesouro artístico, Nossa Senhora das Mercês, simples, porém muito charmosa, Nossa Senhora do Rosário, a mais antiga da cidade e quase sempre fechada à visitação, Nossa Senhora do Carmo, marco do Rococó mineiro e, finalmente, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, de exterior carrancudo e sem graça, mas cheia de ouro na parte interna. Além das igrejas, há museus, memoriais, solares e outras construções históricas que poderiam atrair bem mais turistas do que a cidade hoje tem como capacidade e vocação. O número de pousadas não chega a ser ínfimo, mas em termos gastronômicos, comer uma pizza de mussarela minimamente aceitável, pode exigir um esforço hercúleo, a não ser que o turista se satisfaça com massa de pão e salsa desidratada no lugar de orégano ou manjericão fresco, artigo quase de luxo. Não demora muito para notar que a mão de obra na cidade é escassa, fato que faz o comércio sofrer, especialmente o comércio de artigos típicos, que tem mais dificuldade de contratar, exatamente porque falta estrutura turística. Mesmo sendo uma cidade relativamente pequena, São João Del Rei possui trânsito um tanto quanto bagunçado e a sinalização é ruim, quando não inexistente, sobretudo nas saídas para estradas, onde se torna ainda mais necessária (em termos gerais, a precariedade se faz presente em vários trechos rodoviários). O problema maior, no entanto, é a ocupação desenfreada nos morros que cercam a cidade, tornando-a desagradável no que tange ao aspecto urbanístico. Não há uma lei que proíba ou sequer restrinja a construção fora dos padrões históricos e arquitetônicos, tampouco uma delimitação quanto às áreas nas quais construir é permitido. Nesse caso, o argumento esquerdista e politicamente correto aponta para a especulação imobiliária como responsável, sem se dar conta da completa ausência de planejamento familiar no Brasil, grave lacuna que deveria ter sido preenchida há pelo menos quarenta anos. Pudemos reparar inúmeras mães portando crianças de colo, com mais um ou dois filhos pequenos a pé, indo na direção de algum lugar. Mães muitas vezes bastante jovens, ainda longevas em termos de período fértil. Vale ressaltar que dentre as cidades que visitamos, somente Tiradentes escapa do crescimento urbano desenfreado. O centro histórico é muito mais preservado arquitetonicamente, de modo que o casario colonial típico se harmoniza com a Matriz de Santo Antonio, também recheada de ouro, no alto da cidade. A gastronomia de Tiradentes igualmente se mostra mais sofisticada e variada do que na vizinha São João Del Rei, inclusive para quem não quer chegar nem perto de carne. Se irá se manter assim, não se sabe.

Tiradentes e a Matriz de Santo Antonio ao fundo

Em Congonhas, o conjunto artístico da Basílica de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos é sem dúvida o ponto alto da viagem às cidades históricas mineiras. Apesar de alguns argumentos bastante convincentes que retiram de Aleijadinho a aura de mestre, as cenas do calvário de Cristo, talhadas em cedro, e principalmente as estátuas dos doze profetas em pedra sabão, conferem ao local uma característica pitoresca, mais pela atmosfera do que pela arte de Antonio Francisco Lisboa, indubitavelmente grosseira em certos detalhes. De um lado uma Congonhas desfigurada pelo mesmo problema que São João Del Rei, do outro, no alto da colina, com as estátuas quase flutuando no céu junto à Basílica, a impressão de que o santuário religioso se isola do resto do mundo, mantendo resguardados a paz e o silêncio, é nítida e quase palpável. O senão fica por conta dos anos e anos de vandalismo, cujas marcas inscritas perduram no macio da pedra sabão. Felizmente, hoje em dia, a vigilância é bem mais atenta.

 
A Basílica de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas

Em Ouro Preto a visita teve que transcorrer rápida, sendo que o tempo foi suficiente somente para que visitássemos as atrações mais icônicas da cidade: a Igreja de São Francisco de Assis, cuja fachada é considerada a mais grandiosa do barroco mineiro e o teto, pintado por mestre Ataíde, o segundo mais bonito do mundo, ficando atrás da Capela Sistina, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, cuja quantidade de ouro no interior é uma das maiores no Brasil e a Nossa Senhora do Carmo, que cativa o turista devido aos azulejos portugueses junto à capela-mor, além do adro panorâmico. Se a riqueza artística, cultural e histórica de Ouro Preto faz com que a cidade lidere em importância o Circuito do Ouro, conferindo-lhe o justo título de patrimônio histórico da humanidade, a desatenção urbanística das últimas décadas, também com justiça, poderá subtrair a conquista.

O rebuscamento barroco na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto

As cidades menores e os povoados que citei no início não nos chamaram muito a atenção. Em teoria, o artesanato é o forte em todos esses lugares, mas falta criatividade para variar o repertório das peças, demasiadamente similares e que podem ser encontradas aos borbotões nas lojas de Tiradentes sem que o preço varie tanto. Fica algum destaque para Resende Costa, que apresenta leque mais amplo de peças em tear.
A viagem às cidades históricas de Minas Gerais, como qualquer outro destino brasileiro, certamente proporciona prazer ao turista, tanto culturalmente, quanto em relação à beleza natural, que se pode desfrutar em uma caminhada por trechos preservados de vegetação nativa, observando fauna, flora e respirando ar puro. Em sentido oposto, é preciso paciência para driblar os problemas típicos de um país que não explora corretamente a atividade turística. Pelo bem e pelo mal, é a cara do Brasil.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Anarco-relativismo e revolução: o perigoso descarte dos padrões e a crise da autoridade

"A grande crise na educação estaria ligada ao fato de que toda e qualquer responsabilidade pelo mundo está sendo rejeitada, seja a responsabilidade de dar ordens, seja a de obedecê-las. Os adultos se recusam a assumir responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças." - Hannah Arendt

Em meio à onda de manifestações que varre os quatro cantos do Brasil, o senso comum faz com que muitos cometam equívocos que evidenciam a profunda crise de valores que ora vivemos. Dentre tantas causas justíssimas que, de fato, exigem uma tomada de postura da população, há aqueles que se perdem na exaltação da estética dos protestos e do frescor da juventude. Penso ser necessário menos louvor e empolgação e mais cuidado.
Em um primeiro momento, quando os idiotas úteis do MPL (um mero núcleo minoritário de transmissão de ideias autoritárias de esquerda advindas do petismo e de partidos nanicos dotados do mesmo viés) deram início às manifestações, sem que ainda o cidadão comum participasse das mesmas, Arnaldo Jabour foi um dos únicos que criticou de modo exemplarmente correto as atitudes do grupelho, baseadas sim em vandalismo e violência, empreendidas com intuito anticapitalista e visando a atingir sobretudo o governo do estado de São Paulo. Jabour foi esculhambado. Depois disso, o rumo dos acontecimentos fugiu ao que normalmente poderia se esperar do contexto e o MPL foi engolfado por reivindicações muito mais amplas e justas. Os alvos passaram a ser o governo federal e a classe política cooptada, dado os inúmeros males que estes erigiram como método de governo há dez anos. Melhor assim, mas é preciso refletir a respeito de certos aspectos.
A atual juventude foi (des)educada sob a égide do marxismo, do pós-modernismo e da filosofia de Rousseau, mistura de insanidade que resultou na nefasta noção de que tudo é possível e legitimado segundo uma visão rigorosamente deturpada do conceito de liberdade e na recusa de qualquer autoridade estabelecida a partir dos usos, costumes e leis da sociedade. Considerado tal panorama, não surpreende verificar que a polícia venha sendo duramente atingida por críticas de vários segmentos, pois ela representa um tipo de autoridade facilmente identificável perante o senso comum. Juntamente com as forças armadas, a polícia detém o monopólio da violência no mundo moderno, elemento cotidiano - no caso da polícia - garantidor de segurança e da contenção de indivíduos ou grupos que transgridem a normatividade. A ideia de norma, sem a qual não há possibilidade de coordenação e ajuste das diferenças e interesses que tecem a experiência social, é cada vez mais colocada em dúvida por pretensos especialistas que insistem em lhe atribuir conotação fragmentária, classista ou racial. A isonomia legal é uma característica insigne do liberalismo e, sempre que for infringida, os responsáveis são passíveis de punição. Se nos dias de hoje ocorrem situações em que a força policial atua sem respeitar a isonomia legal, isso não deveria jamais servir como justificativa para que se conteste o monopólio da violência que a polícia detém, do contrário, abrem-se precedentes perigosos, como notoriamente se sucedeu quando da ascensão do nazismo durante a República de Weimar. No cadinho do marxismo revolucionário, da anarquia pós-moderna e da noção rousseauniana de liberdade como elemento gratuito da natureza, a grande maioria dos jovens chutou para longe a necessidade da observância de valores e interditos morais, bem como os mais velhos se furtam à responsabilidade na transmissão de tais valores e interditos, - que talvez eles mesmos tenham deixado se perder - daí a crise na educação à qual remete a reflexão que abre este artigo. É cada vez mais raro encontrar quem interprete a liberdade como um dever interior, como uma questão de construção moral.
No último domingo (23/06), o jornal O Estado de São Paulo trouxe à baila um texto do sociólogo Pedro Rocha de Oliveira, intitulado "Mau Senso", no qual é possível comprovar a atual crise de valores. Obscurecido e limitado no interior das fronteiras esquerdistas, o autor consegue a proeza de inverter cabalmente a realidade. Ao discutir a respeito de uma ação policial na favela do Jacarezinho (RJ), ele criticou a polícia e aproveitou para defender a ideia manjada, superficial, preconceituosa e promotora de ódio segundo a qual a "burguesia" rejeita a violência policial contra ela própria, mas não está nem aí para a "truculência" corriqueira observada nas periferias. Como se vê, Oliveira, pinta com cores classistas o que deveria ser pensado a partir de uma perspectiva universalizante. Primeiramente, vale ressaltar que ninguém que preze a isonomia legal e esteja imbuído de ética irá justificar episódios de violência descabida, aqui ou acolá, tratando com parcialidade as diferenças econômicas. Em segundo lugar, e o que é pior, o autor responsabiliza os ricos e a classe média por algo que definitivamente não corresponde à realidade, perdendo a chance de proferir a crítica correta. O grande mérito de José Padilha, diretor de Tropa de Elite, foi apontar o erro ideológico concreto dos estratos mais abastados da sociedade, deixando de lado o ranço esquerdista, abstrato e economicista. Enquanto o crime comanda as periferias e afeta a sociedade indistintamente no que se refere a questões econômicas, estabelecendo também o poder paralelo e privando o cidadão de bem de seus direitos, jovens intelectualoides financeiramente privilegiados, muitas vezes consumidores de drogas e doutrinados pela esquerda desde a escola até a universidade, sustentam e defendem a bandidagem. É essa juventude que relativiza a ética, a moral, as leis, as autoridades e tudo mais que sinaliza que nem tudo deve ser permitido, sob pena de imperar a lei do mais forte. Sempre que o crime mata, chacina e faz o sangue jorrar, armado até os dentes com equipamento superior ao da polícia, vitimando diariamente gente de bem no interior das próprias favelas, os apólogos do relativismo silenciam; quando a polícia enfrenta os bandidos, está errada aos olhos deles.
Ainda que o Brasil viva um quadro de intensa falta de representatividade e de instituições sucateadas, não é com base no descarte completo de padrões construídos ao longo de séculos de história que algo novo e melhor surgirá a partir do nada. É preciso saber contra o que exatamente se colocar, e não ser um arauto do niilismo e da destruição; é preciso separar o joio do trigo, identificar o que é justo e o que não é, o que é pelo bem de todos e o que é do interesse de oportunistas, ideólogos, fomentadores do ódio, da revolução e do caos social, diferenciações que só podem ser almejadas se houver padrões e referências, como deixam claras as lições dos grandes líderes que a história legou. Ao contrário do que pensa Oliveira, a juventude não está preocupada com preservação de ordem nenhuma, apreciação que se evidencia na relação dos jovens com os pais, com as pessoas mais velhas em geral, com os professores e profissionais da educação, além da relação com as autoridades instituídas, por isso mesmo os jovens enxergam a polícia com ares extremamente negativos. Se nem todos atentam para a violência como problema social sempre que a mesma é indevidamente exercida, talvez porque não tenham sido vitimados por ela, deve-se pensar a respeito recorrendo a Hobbes, não fazendo uso de sociologização classista. Encerrado nos limites da literatura politicamente correta da esquerda, tanto quanto a juventude "burguesa" que ele intenciona criticar sem se dar conta de que compartilham da mesma visão, Oliveira é ao mesmo tempo carrasco ideológico e vítima da ideologia. E os jovens, irão se manter presos ao raciocínio próprio das mentes cativas ou recuperarão os padrões? Sou totalmente pessimista quanto a isso.

domingo, 23 de junho de 2013

Protestos, petismo, esquerdismo: alguns apontamentos


1. Há quem até hoje, passados dez anos do (des)governo petista, não tenha sido capaz de enxergar uma distinção fundamental, qual seja a de que no caso do PT, a corrupção não é mera transgressão da ética política, mas sim um modus operandi sistêmico de cuja eficácia dependeu esse tempo todo o projeto de poder do partido. Daí os quadrilheiros e seus asseclas fanatizados procurarem justificar e até legitimar a prática lançando mão do populismo e do autoritarismo. Tantas vezes a verdade é distorcida e a mentira se torna regra, que passa ela própria a ser assumida como verdadeira, estratagema tipicamente autoritário. 

2. Decorre do item 1 que tal sistematização da corrupção difere o PT de qualquer outra sigla que outrora tenha ocupado o poder. Portanto, é um erro afirmar que existe corrupção no Brasil desde que o país se formou enquanto tal, se com isso se objetiva relativizar a corrupção petista. Compreender a história, dentre outros fatores, requer igualmente a capacidade de identificar os pormenores reveladores. Nas ditaduras, todo o mal é escamoteado sob a pele de cordeiro.

3. Tão logo o Brasil obteve sua independência política em relação a Portugal, o país já recebera o primeiro atentado contra a democracia, situação que desde então é recorrente. Difundir a ideia segundo a qual o antipartidarismo pode abrir brechas ditatoriais requer, no mínimo, cuidadosas ponderações. A democracia nunca se consolidou no Brasil, pois o regime democrático, mais do que qualquer outro, exige uma cultura democrática cotidiana por parte dos cidadãos, coisa que por aqui jamais se viu - oxalá possa mudar a partir de agora. Desde que o PT assumiu o poder, a democracia sofreu golpes ainda mais duros, algo diretamente relacionado ao projeto de poder petista. O cerne do gramscianismo é a destruição institucional, mecanismo verificável na medida em que o Poder Legislativo foi sequestrado pelos interesses do Executivo quando da instauração do Mensalão. É evidente que à chefia do Executivo não recaem todas as responsabilidades, mas a transformação do Congresso em um balcão de negócios completamente inoperante no âmbito das demandas públicas e apenas atuante enquanto mecanismo de conformação aos interesses de poder, foi uma construção do hiperpresidencialismo petista. Compreender a história é, acima de tudo, traçar perspectivas, logo indaga-se: como não enxergar conexões históricas claras entre o hiperpresidencialismo petista e a implantação do Poder Moderador por D. Pedro I quando da primeira Constituição do Brasil em 1824?

4. Trata-se de uma incoerência conveniente que podemos atribuir aos petistas a sórdida tentativa de invalidar as insatisfações e reivindicações que uma enorme parte da população resolveu finalmente trazer à tona. A intolerância à corrupção, à gastança desenfreada e pessimamente planejada do dinheiro público, bem como o repúdio aos privilégios políticos que formam uma extensa rede capilarizada, cujo intuito efetivamente consolidado foi fazer com o que o Legislativo ficasse à mercê do Executivo -  e daí as críticas que se fazem à figura individual do ex-presidente e da atual - transcende a questão de classe e o espectro ideológico.

5. Historicamente, o PT e, diga-se de passagem, toda a esquerda, defenderam com unhas e dentes a bandeira da ética na política. Discurso modificado inteiramente a partir do momento em que passaram da oposição para a situação. Também quanto aos mais diversos assim chamados "movimentos sociais", compostos por minorias sectárias autoproclamadas vanguardistas, visionárias e dotadas de entes politicamente superiores, idênticas no que se refere ao embolorado conteúdo anticapitalista (inclua-se aí o MPL), o apoio sempre se mostrou irrestrito, independente dos meios de ação, todos suspeitos, e dos atos concretos, autoritários, violentos e nada afeitos à pluralidade democrática. Agora que as reivindicações se amplificaram, tanto em volume como em extensão, desvinculadas de aspectos partidários e ideológicos, reflexo direto da exaustão da população em relação a um governo política e economicamente esgotado em função de tamanha incompetência administrativa e obviamente incapaz de justificar uma porcentagem de 36% do PIB sugada com impostos, ao passo que os serviços públicos se mostram tão horripilantes, além da reprodução em escala jamais vista dos privilégios, dos favores e do fisiologismo sem contrapartida em termos de representatividade e agenda política, é execrável a postura de quem ainda se dispõe a encarar o contexto de uma perspectiva partidária e ideologizada. Seria incompreensão quanto à própria história ou, pior ainda, caso de extrema desonestidade intelectual?

6. É possível encontrar um ou outro argumento que permita aos atores sociais a defesa de programas assistencialistas. Não se condena inteiramente o assistencialismo, especialmente em um país de tão alta concentração da renda como o Brasil, todavia, o assistencialismo não pode jamais ser o mote principal de um governo cuja desatenção a políticas de formação de capital humano e infraestrutura é gritante há uma década. O assistencialismo, ao invés de se atenuar, comportamento esperado caso o mesmo fosse eficiente em reduzir a pobreza, se amplia, prova de que seu resultado mais categórico é a perpetuação da pobreza, além de criar um deplorável quadro de dependência. O esgotamento de um modelo econômico capenga, de crescimento vergonhoso, incapaz de melhorar o IDH e, mais recentemente, perigosamente afim com a inflação, se revela inconteste. É fácil topar com os intelectualoides da esquerda repetindo mantras que jogam a responsabilidade da inflação nos "empresários gananciosos", uma superficialidade generalizante. Além do fato de que tantos grandes empresários amigos do rei tiraram proveito do repasto oferecido pela estatização do capital desde que o PT assumiu o poder, os médios, pequenos e microempresários brasileiros sofrem o pão que o diabo amassou diante da avassaladora carga tributária e da burocracia. Fora isso, é quase um crime não prestar atenção ao caos logístico, à gastança desenfreada e às interferências sofridas pelo Banco Central, fatores diretamente associados ao galope inflacionário.

7. A esquerda não está autorizada a defender a democracia, pois diversas vezes assume esse sistema político como um valor burguês. Talvez seja possível encontrar em um pensador como Eduard Bernstein algo que mereça atenção em termos de democracia no seio do pensamento esquerdista. Não por acaso, Bernstein é execrado há mais de um século pela esquerda revolucionária, aquela mesma que costuma colocar as mangas de fora. Toda vez que um revolucionário ousa proclamar afinidades com a democracia, não faz mais do que tentar confundir os desavisados. Limpar-se com a própria sujeira só espalha o fedor autoritário, desnudando um profundo falseamento da história e da teoria política e, quem quer que tenha se embrenhado na leitura de Marx, sabe perfeitamente que a ditadura do proletariado, uma abstração apenas tornada concreta pela tomada de poder por parte da vanguarda partidária, tem como resultado essencial a morte da sociedade perante o Estado autoritário. Que democracia pode surgir daí? O grande Raymond Aron, que estudou Marx à exaustão, deixa uma reflexão importantíssima: passar da ditadura do proletariado, etapa sine qua non o comunismo não se estabelece na teoria marxiana, é no mínimo uma causa das mais improváveis, dado que contrapõe uma etapa anterior na qual o poder, além de fortemente concentrado, é obtido com violência, a uma etapa posterior de completa igualdade, harmonia e inexistência do Estado. A materialização trágica da revolução comunista está explícita em Lenin, em Stalin, em Mao Tsé-tung ou em qualquer outra derivação destes.

Aguardemos...

terça-feira, 18 de junho de 2013

Aristaire defende

Investimento em educação de qualidade, pesquisa, ciência e tecnologia.
Autonomia do Banco Central e ortodoxia monetária.
Autonomia do Poder Judiciário e do Ministério Público. Repúdio às PECs 33 e 37!
O fim dos privilégios da classe política cooptada pela ditadura PeTralha.
Punições severas aos corruptos.
O fim do assistencialismo parasitário e populista. Repúdio ao pão e circo! Repúdio aos eventos esportivos bancados com dinheiro público!
Melhoras nos serviços públicos e projetos viários e urbanísticos.
O liberalismo político e econômico. A democracia e a liberdade individual.
As reivindicações antipartidárias. Repúdio ao vandalismo e aos partidos políticos revolucionários, autoritários e violentos de extrema esquerda (PCO, PC do B, PSol, PSTU e afins)!
Repúdio ao governo federal! Fora Dilma, fora PT!


sexta-feira, 14 de junho de 2013

MPL: mais uma imbecilidade esquerdista fruto do desconhecimento da democracia e do desrespeito à autoridade


É certo que o atual estado brasileiro, mais e mais a cada dia que passa, perde o pouco que ainda resta de democrático. Logo, as fraturas que conduziram o país à ditadura gramsciana terão se estabelecido indelevelmente sobre a sociedade e, em tal situação, apenas o que sobra é o completo caos, como já tem sido observado nesta semana de conflitos entre a Polícia Militar e os manifestantes do Movimento Passe Livre.
Uma das maiores trivialidades da política diz respeito à noção segundo a qual, nos regimes democráticos, a livre expressão de ideias é um direito que deve ser garantido. Ninguém discorda disso, mas o que nem todos levam em conta, lamentavelmente, reside no fato de que as manifestações do livre pensamento precisam necessariamente estar enquadradas dentro dos limites da lei e da civilidade, respeitando assim, não só a questão dos direitos, mas também a dos deveres, isto é, todo aquele que expõe o que pensa, não está isento da obrigação de manter interditos como o respeito pela ordem, a ação pacífica e a preservação do patrimônio público. Se tais limites não forem observados, a exposição de ideias imediatamente se transforma em imposição das mesmas, e aí já não se tem nada mais que possa ser qualificado, sequer minimamente, de democrático. Obviamente, em função do teor de seus atos, o MPL se inscreve totalmente fora do círculo da democracia, a despeito do despreparo da PM.
Não deixa de ser curioso notar o Ministro da Justiça, sr. José Eduardo Cardozo, também ele um dos agentes da ditadura gramsciana no Brasil, vir a público em defesa da observância de princípios democráticos, quando se sabe que não somente os representantes do MPL, mas todo jovem doutrinado sobre os alicerces da frágil educação brasileira, deixada a cargo da esquerda e de suas excrescências marxistas e pós-modernas, não passa de mero reprodutor das imbecilidades difundidas nas escolas, nos cursos pré-vestibulares e nas universidades. Essa gentalha inculta, que leu muito pouco sobre Marx, - ou não leu nada - opera da maneira mais superficial possível com os conceitos de revolução e justiça social, somando a essa tosca ideologia comportamentos de fundo anarquista, tradição política que, inclusive, se forjou em oposição ao pensamento de Marx no século XIX. Aqui, não posso deixar de remeter às ideias do anarquista Foucault, que atribuía à força policial o objetivo único e exclusivo de reprimir, ao mesmo tempo que era um entusiasta da teocracia iraniana do Aiatolá Khomeini, vista por ele como renovadora e libertária.
Foucault virou cult nas academias brasileiras, daí não ser surpreendente verificar a incongruência do pensamento de esquerda em nosso país. Não adianta nada tentar reprovar a gentalha do MPL, a mesma que é a favor da liberação da maconha, que já promoveu ocupações arbitrárias em diversas reitorias universitárias, que realiza festas semanais movidas a pancadão, álcool e drogas no interior do campus Monte Alegre da PUC/SP, que acredita em socialismo, fazendo apelos à democracia. Conheço bem esse pessoal, que vive às custas dos pais e não passa muito tempo sem se deleitar com alguma bugiganga proporcionada pelo capitalismo massificado. É gente que não sabe o significado de democracia, simplesmente porque a democracia de Aristóteles, de Tocqueville, de Josef Schumpeter ou de Norberto Bobbio jamais lhes foi ensinada por seus professores esquerdistas. Caso possuíssem uma mínima ideia a respeito das reflexões dos mestres, estariam protestando contra aquilo que realmente afundou o Brasil, já há um bom tempo, entretanto, democracia na concepção dessa gente, é gritar mais alto, bater mais forte, apanhar também, já que faz parte da luta, e tentar impor ideias com base na intimidação e na violência. Eles não estão nem um pouco preocupados com questões públicas.
É um paradoxo que estes grupelhos, anarquistas por um lado, mas sempre contando com o apoio de partidos nanicos de extrema esquerda, para os quais a busca de representatividade nunca importou, sendo mais fácil agir na ilegalidade e na incitação ao ódio, não saibam diferenciar autoritarismo de autoridade. Como todo democrata, odeiam o autoritarismo, mas se posicionam a uma distância abissal de quem defende a liberdade, pois não respeitam autoridade nenhuma, bem como não buscam argumentação racional, tampouco o debate no intuito de encontrar possibilidades de mudança positiva. Quem afirma ser possível negociar com esses movimentos, não sabe coisa alguma sobre suas ideias e intenções, Daí vem outro paradoxo: ao mesmo tempo que recorrem à abstração do "social" na tentativa de legitimação de seus atos, são incapazes de perceber a necessidade de lidar com a existência da autoridade como elemento de resguardo e espaço de ajuste para as diferenças inerentes aos agentes da sociedade, portanto, pautam sua forma de agir segundo impulsos bestiais e ególatras.
Frequentemente o governo brasileiro vem tomando medidas autoritárias que consolidam o gramscianismo no país. A sanha de poder continua, com projetos claramente antidemocráticos tramitando no Congresso e no Executivo. A corrupção é sistêmica, ao passo que os privilégios da classe política e do empresariado cooptado com favorecimentos virou regra no cotidiano do país. Não se verificam protestos contra estes males de extrema gravidade que afetam a nação, talvez porque a complexidade de tais circunstâncias, incluindo-se aí o populismo que gera catarse, sejam áridas demais face à ignorância de tantos. Nunca é demais lembrar que o caos, a mistura de agitação irresponsável e violência com política, além da reprodução do ódio em escala cada vez mais abrangente e banalizada, são sinais indicativos de que coisas ainda piores podem estar por vir. Não é exagero vislumbrar que o Brasil está à beira de um desastre político e social completo, fato capaz de levar a sociedade a um acentuado estado de exceção. Talvez uma ponderação simples possa ser mais útil para finalizar: aquilo que é público nada tem a ver com gratuidade, afinal, a verba que custeia as despesas públicas é paga pelo contribuinte; o dinheiro não cai do céu; quem paga imposto e não tem retorno, como é o caso neste país, no qual ao invés de beneficiar as pessoas, o dinheiro pago em impostos serve para bancar assistencialismo e privilégios, deveria protestar contra isso, mas não levar adiante a crença ingênua de que o que é público vem de graça.